As manhãs de Setembro chegam sempre com um sopro agreste, como zurzidos pelo vendaval, coartando os movimentos de quem ousa ainda acreditar na doçura do estio. Há quem saia à rua com capuzes-de-frade, mas eu procuro antes a pele das crianças, onde a vida deixa sinais: a lunula discreta nas unhas, as efélides que salpicam o rosto, uma ou outra lentigem que resiste ao esquecimento solar.

O mundo escreve-se também no corpo. Um tiridoma mais antigo, uma escarificação quase apagada, a lembrança que a pele tem daquilo que o coração tentou esconder. O tempo é um arqueólogo persistente.

É também o tempo do regresso às escolas. As mochilas pesam, não tanto pelos livros, mas pela expectativa de quem volta a sentar-se frente ao quadro. Nos corredores ecoa a pressa, o entusiasmo tímido, o cheiro das páginas novas que prometem futuros ainda em branco.

E lá fora, no campo, os dias anunciam a vindima. Os cestos enchem-se devagar, mãos calejadas recolhem o fruto sob um sol menos inclemente, mas firme. Há um rumor de festa que se mistura com o mosto, promessa de vinho, de conversas prolongadas, de gargantas que se aquecem no inverno próximo.

E contudo, nem tudo é peso ou cicatriz. No ar levanta-se uma poalha de luz, tênue e cintilante, pousando sobre as ervas agrestes que persistem: morriões-azuis, táguedas de caule erguido, pequenas insurreições da cor.

À beira do tanque, um axolotle observa-me com olhos de um tempo anterior à memória. Nada em círculos, serpeando como se soubesse que a vida é sempre um regresso ao mesmo ponto, mas com outra respiração.

Na alma, porém, fica-me esta sensação inextricável: de que, por mais que o vento fira, há sempre sobrevivência. Porque a natureza, mesmo fustigada, ergue-se indemne, lembrando-nos que também nós, frágeis, podemos atravessar o vendaval.

E talvez seja esta a lição de Setembro: regressar — às aulas, às vindimas, às marcas do corpo — não é recomeçar do nada, mas aprender a continuar. Como a vinha que dá fruto depois da poda, como o caderno que se abre em branco, como o coração que insiste, mesmo ferido, em não desistir do seu próprio outono.