A Geografia do Instante

Uma viagem entre cidades e ausências

Gosto imenso de viajar. Não por fuga, mas por excesso de vida que não cabe no mesmo lugar.

Sozinha aproveito escapadinhas sempre que o calendário permite, mas as férias têm de ser obrigatoriamente em agosto. Em 2023 fiz um circuito pelas capitais do Norte da Europa. Parti a 16 de agosto rumo a Estocolmo, com a luz ainda morna a cair sobre o dia e o corpo já em movimento antes de saber porquê.

Depois de me instalar, fui conhecer a cidade. Comecei pela Stortorget, uma praça medieval, a mais antiga da cidade e o coração da Cidade Velha. Um dos edifícios mais conhecidos é o da antiga Bolsa de Valores de Estocolmo que, atualmente, acolhe o Museu do Prémio Nobel, a Academia Sueca e a Biblioteca Nobel. Demorei-me na zona dos prémios literários e senti um orgulho discreto ao ver o nosso laureado entre tantos outros nomes. Ainda passei pela catedral e, por fim, dei uma volta de metro, onde as estações são decoradas e são consideradas a “galeria de arte mais longa do mundo”.

No segundo dia visitei o Palácio Real de Estocolmo, o Kungliga Slottet, e o Kungsträdgården, o parque central da cidade. Passei também pelo Östermalms Saluhall, um mercado sofisticado, cheio de frutas frescas, queijos e peixe, com restaurantes elegantes. Faz lembrar o nosso antigo Mercado da Ribeira, agora Time Out Market.

Segui depois para a Drottninggatan, a “Rua da Rainha”, uma rua pedonal com cerca de 1,5 km, cheia de lojas, cafés, bares e restaurantes.

Visitei ainda o Skansen, museu ao ar livre com casas típicas e tradição folclórica. Passei ao lado do Museu ABBA, mas apenas fiquei pela fotografia. Tudo ali parecia leve, quase encenado para a memória.

No terceiro dia, antes de rumar a Copenhaga, ainda fui ao Stadshuset, a Câmara Municipal de Estocolmo.

Não fiz grandes despesas, porque tinha adquirido o Stockholm Pass, o que tornou gratuitas todas as visitas que selecionei.

Os escandinavos ocupam os espaços verdes como quem respira luz. Aproveitam cada raio de sol com uma disciplina quase silenciosa.

Nos bares, as televisões eram janelas abertas para um mesmo coração. A Suécia avançava no campeonato mundial feminino e as pessoas viviam isso como se o país inteiro respirasse ao mesmo ritmo. Havia mãos no ar, abraços entre desconhecidos, cervejas esquecidas em cima do balcão. A emoção não precisava de tradução. Era simples, quase infantil, como um grito que não se aprende a conter.

Lembro-me da luz a cair sobre os edifícios como uma água fria e dourada. E lembro-me da sensação estranha de estar dentro de algo que não me pertencia, mas que me acolhia na mesma.

Encantou-me esta cidade. A luz parece nunca se gastar, a água está em todo o lado e há uma ordem quase irreal que se instala no silêncio.

 

Rumei a Copenhaga com expectativas elevadas. A Pequena Sereia, (Den Lille Havfrue),— inspirada no conto de Hans Christian Andersen, o Nyhavn — porto e postal vivo da cidade — tudo parecia prometer continuidade.

Mas foi aqui que tudo mudou.

A cidade estava em ebulição. Monumentos encerrados, ruas desviadas, vozes em muitas línguas. A semana LGBT+ pintava os espaços de cor e movimento, como se a cidade tivesse decidido mudar de pele. Ao mesmo tempo, preparava-se a visita do presidente da Ucrânia. E, como se não bastasse, o Ironman atravessava ruas e pontes, transformando a cidade num corpo em esforço contínuo.

De repente, tudo se tornou instável.

O telemóvel acendeu-se com uma simplicidade cruel. Não havia metáforas possíveis. Apenas uma frase. Apenas um nome. E depois o silêncio.

A rua continuava cheia. As bicicletas passavam. As bandeiras moviam-se como se nada tivesse mudado. Mas eu já não estava no mesmo lugar.

Não sei quanto tempo fiquei parada. Sei apenas que comecei a andar sem direção, como se o corpo tivesse decidido continuar aquilo que a mente já não conseguia acompanhar.

A cidade parecia mais alta. O som mais distante. A alegria dos outros tornara-se uma maré ao contrário, onde eu me afundava sem me mexer.

Com a notícia da morte de um familiar, o espírito de euforia desvaneceu.

Hoje quase não me lembro dos monumentos fechados, nem dos percursos alterados pelo Ironman, nem dos discursos que enchiam os telejornais. Lembro-me apenas da água imóvel do canal, da luz dourada a escorrer sobre as fachadas de Nyhavn e daquela mensagem no ecrã do telemóvel.

Foi ali, entre uma cidade em festa e uma ausência irreparável, que percebi isto: há lugares onde tiramos fotografias. E há lugares onde uma parte de nós fica para sempre.

 

E depois veio Oslo.

Oslo não gritava. Respirava.

As ruas tinham uma calma obstinada, quase vegetal. As pessoas moviam-se sem pressa, como se o tempo ali tivesse aprendido a ser discreto. Havia bicicletas, parques, água e céu aberto. Tudo parecia alinhado com uma ideia silenciosa de bem-estar, como se viver ali fosse uma forma de ordem interior.

Chamam-lhe hygge, esse conforto nórdico que não se explica, apenas se sente. Eu entendi-o ali, não como conceito, mas como atmosfera.

Oslo ensinava outra coisa: que o mundo pode ser leve sem ser vazio.

Mas eu já não conseguia habitar totalmente nenhum desses lugares.

Em Estocolmo, senti pertença. Em Copenhaga, excesso. Em Oslo, suspensão. E foi nessa suspensão que percebi que a viagem não tinha acabado. Apenas tinha mudado de direção. Porque há cidades que se visitam. E há outras que nos visitam a nós — sem pedir licença. E havia ainda uma última coisa que Oslo não me contou, mas que ficou a suspender-se no ar, leve e fria, como neve antes de tocar o chão.

E ficou apenas isso: um silêncio em suspensão, como se a vontade de evasão e de regresso continuassem em mim.