Crónica com termos de “Lobos” de Tânia Ganho

As manhãs de Setembro chegam sempre com um sopro agreste, como zurzidos pelo vendaval, coartando os movimentos de quem ousa ainda acreditar na doçura do estio. Há quem saia à rua com capuzes-de-frade, mas eu procuro antes a pele das crianças, onde a vida deixa sinais: a lunula discreta nas unhas, as efélides que salpicam o rosto, uma ou outra lentigem que resiste ao esquecimento solar.
O mundo escreve-se também no corpo. Um tiridoma mais antigo, uma escarificação quase apagada, a lembrança que a pele tem daquilo que o coração tentou esconder. O tempo é um arqueólogo persistente.
É também o tempo do regresso às escolas. As mochilas pesam, não tanto pelos livros, mas pela expectativa de quem volta a sentar-se frente ao quadro. Nos corredores ecoa a pressa, o entusiasmo tímido, o cheiro das páginas novas que prometem futuros ainda em branco.
E lá fora, no campo, os dias anunciam a vindima. Os cestos enchem-se devagar, mãos calejadas recolhem o fruto sob um sol menos inclemente, mas firme. Há um rumor de festa que se mistura com o mosto, promessa de vinho, de conversas prolongadas, de gargantas que se aquecem no inverno próximo.
E contudo, nem tudo é peso ou cicatriz. No ar levanta-se uma poalha de luz, tênue e cintilante, pousando sobre as ervas agrestes que persistem: morriões-azuis, táguedas de caule erguido, pequenas insurreições da cor.
À beira do tanque, um axolotle observa-me com olhos de um tempo anterior à memória. Nada em círculos, serpeando como se soubesse que a vida é sempre um regresso ao mesmo ponto, mas com outra respiração.
Na alma, porém, fica-me esta sensação inextricável: de que, por mais que o vento fira, há sempre sobrevivência. Porque a natureza, mesmo fustigada, ergue-se indemne, lembrando-nos que também nós, frágeis, podemos atravessar o vendaval.
E talvez seja esta a lição de Setembro: regressar — às aulas, às vindimas, às marcas do corpo — não é recomeçar do nada, mas aprender a continuar. Como a vinha que dá fruto depois da poda, como o caderno que se abre em branco, como o coração que insiste, mesmo ferido, em não desistir do seu próprio outono.


