Mês a mês

Decidi criar este espaço dentro do blogue para escrever, todos os meses, um pouco do que me habita. Histórias, pensamentos, impressões. Um exercício de partilha e de companhia, porque acredito que as palavras podem aproximar-nos.

junho 2026

trouxe-me uma alegria especial. 

O concurso “Escrever no Escuro”, uma iniciativa literária promovida pela associação cultural A Palavra, pelo Município de Oeiras e pelas Bibliotecas de Oeiras, distinguiu o meu conto com o 2.º lugar.

A cerimónia de entrega de prémios e o lançamento da antologia da primeira edição terão lugar no dia 18 de julho de 2026, no Centro Cultural de Barcarena.

É uma enorme satisfação ver este trabalho reconhecido e integrar esta antologia. Cada página escrita começa sempre no escuro, mas, por vezes, encontra a luz de quem a lê. E é por isso que vale a pena continuar a escrever.

Espectro de residente

Quando Karl chegou a Portugal, trazia duas malas, um dicionário de bolso e uma confiança ingénua na palavra “simples”.

Karl era alemão. Isso explica muita coisa, mas não o suficiente.

Veio para Lisboa trabalhar remotamente, convencido de que resolver papéis seria uma questão de organização, três formulários e uma senha. Na sua cabeça, o Estado era uma máquina: introduz-se o pedido, obtém-se o resultado. Havia uma certa poesia nisso, pensava ele, uma coreografia invisível entre cidadão e sistema. No terceiro dia, percebeu que em Portugal a poesia existia, mas era de outro género. Mais próxima do surrealismo. Precisava de um número de contribuinte. Algo básico. Fundamental. Um primeiro passo.

— É rápido — disseram-lhe.

Karl acreditou.

Na repartição, tirou uma senha. O número era A138. O painel mostrava A12. Sentou-se. Observou. Um senhor idoso dormia com a serenidade de quem já desistira de lutar contra o tempo. Uma mulher discutia com o ar, como se estivesse a ensaiar um argumento invisível. Um bebé chorava com convicção política.

Duas horas depois, Karl ainda acreditava no sistema.

Quatro horas depois, começou a acreditar em forças superiores.

Quando finalmente foi chamado, aproximou-se com a postura de quem vai selar um destino.

— Bom dia — disse, num português cauteloso.

A funcionária olhou-o como quem avalia uma peça fora de catálogo — Documento de identificação.

Karl entregou o passaporte.

— Comprovativo de morada.

Karl sorriu. Tinha preparado tudo. Entregou o contrato de arrendamento. A funcionária folheou o papel com desconfiança.

— Isto não serve.

Karl piscou os olhos, como se pudesse ajustar a realidade.

— Não serve?

— Precisa de um comprovativo.

— Mas… isto é o contrato da casa.

— Pois, mas não comprova.

Karl sentiu um ligeiro deslocamento interior. Algo entre a lógica e o abismo.

— O que comprova, então?

A funcionária encolheu os ombros, com a elegância de quem domina o inexplicável.

— Uma fatura.

— Mas eu acabei de chegar.

— Então não tem fatura.

— Não.

— Então não pode comprovar.

Karl saiu da repartição com uma sensação nova. Não era frustração. Era mais profundo. Era como se tivesse sido gentilmente informado de que a realidade não funcionava ali da mesma maneira.

Nos dias seguintes, Karl mergulhou num percurso iniciático. Descobriu que precisava de um representante fiscal para obter o número de contribuinte. Para ter um representante fiscal, precisava de… um número de contribuinte. Riu-se pela primeira vez. Um riso curto, nervoso, quase respeitoso. Havia uma beleza circular naquele raciocínio. Uma espécie de filosofia prática: para existir, é preciso já existir. Num café, explicou a situação ao empregado, que ouvia enquanto limpava o balcão com movimentos lentos, como quem já viu tudo.

— Isso resolve-se — disse o homem. — Conheço um primo que trata disso.

Karl não conhecia o primo, mas começou a perceber que em Portugal o sistema oficial coexistia com outro, mais eficiente, mais humano, mais… primo.

Aceitou.

Dois dias depois, tinha o número de contribuinte. Não sabia exatamente como.

Não perguntou. Aprendeu, então, a primeira regra não escrita: em Portugal, a solução raramente está no sítio onde se espera, mas aparece sempre onde se conversa.

Com o tempo, Karl foi acumulando pequenas vitórias administrativas. Abriu conta no banco, registou-se no centro de saúde, conseguiu até marcar uma reunião numa entidade pública sem sofrer colapso emocional.

Mas o verdadeiro teste chegou com a carta.

Era branca, oficial, intimidante. Informava que faltava um documento no processo do número de contribuinte. Sem esse documento, o número poderia ser anulado.

Dirigiu-se novamente à repartição.

Tirou uma senha. Sentou-se. Esperou.

Desta vez, o painel parecia avançar mais devagar. Ou talvez fosse ele que já não tinha pressa. Observou o mesmo teatro humano: o sono resignado, a indignação criativa, a infância em protesto.

Quando foi chamado, apresentou a carta.

A funcionária leu.

— Falta o comprovativo de morada.

Karl sorriu. Um sorriso calmo, quase terno.

— Já trouxe.

Entregou uma fatura de eletricidade.

A funcionária analisou.

— Está em nome de outra pessoa.

— O senhorio.

— Então não serve.

Karl respirou fundo. Mas não se irritou. Havia, naquele momento, uma clareza nova.

— O que posso fazer?

A funcionária olhou-o com um leve cansaço, mas também com algo próximo de respeito.

— Tem de pedir uma declaração.

— A quem?

— Ao senhorio.

Karl assentiu. Saiu. Não discutiu. Não questionou. Pediu a declaração. Voltou.

Esperou. Entregou. Desta vez, serviu.

Quando saiu da repartição, com o processo finalmente regularizado, Karl não sentiu triunfo. Sentiu transformação.

Portugal tinha-lhe ensinado algo que a Alemanha nunca lhe mostrara: que a ordem é uma ilusão confortável, mas a adaptação é uma arte.

Meses depois, um amigo alemão visitou-o.

— E então? — perguntou. — É fácil tratar das coisas aqui?

Karl pensou por um momento.

Olhou a cidade, os elétricos, as pessoas que atravessavam a rua fora da passadeira com uma confiança quase metafísica.

Sorriu.

— É simples — disse. — Só não é direto.

O amigo franziu a testa.

— Não percebo.

Karl pousou a mão no ombro dele, com a serenidade de quem já atravessou um labirinto.

— Vais perceber.

E, pela primeira vez desde que chegara, Karl não tinha pressa nenhuma de explicar. Tirou do bolso a carteira. Lá dentro, alinhados com um rigor quase irónico, estavam os seus novos documentos: número de contribuinte, cartão do banco, comprovativos, declarações. Pequenas vitórias impressas em papel oficial.

Faltava apenas uma coisa.

— Ainda não tenho residência fiscal definitiva — disse, com naturalidade.

— Porquê?

Karl encolheu ligeiramente os ombros.

— Falta um documento.

O amigo riu-se.

— Qual?

Karl olhou em volta, como se a cidade pudesse ouvir.

As pessoas passavam, os cafés enchiam, alguém discutia ao telefone com uma intensidade doméstica. Tudo funcionava. Tudo avançava. Tudo, de alguma forma, acontecia.

Depois respondeu:

— Prova de que estou cá.

O amigo franziu o sobrolho.

— Mas tu estás cá.

Karl sorriu, desta vez sem ironia.

— Eu sei.

Fez uma pausa breve, quase solene.

— Eles é que ainda não.

 

maio 2026

O conto que se segue foi premiado pela Casa do Educador, um reconhecimento que muito me honra e que agora partilho convosco.

Saída fatídica

Bernardo ia pela primeira vez a uma discoteca. O que mais o intrigava naquele lugar não eram as luzes nem a música, mas os cavalos. A discoteca A2 ficava junto a umas cavalariças e, segundo lhe tinham contado, era possível ver os animais nas pastagens mesmo durante a noite.

Apaixonado pela natureza e pelos animais, a ideia fascinava-o. Estudante universitário e escuteiro desde criança, raramente saía à noite. Apesar de já ser maior de idade, pediu autorização à mãe para ir com um amigo que frequentava o espaço e solicitou também o carro emprestado.

Bernardete hesitou antes de responder.

‒ Não demores a voltar. Sabes que não descanso enquanto não chegas. E presta atenção aos outros na estrada. Ah, e cuidado com a bebida. Tu não estás habituado.

Bernardo sorriu.

‒ Já sou crescido, mãe. O teu boguinhas vai voltar em perfeito estado.

‒ Quero o carro intacto, mas prefiro que sejas tu a chegar são e salvo.

Bernardete tivera o filho tarde e criara-o praticamente sozinha. O pai desaparecera pouco depois do nascimento. Desde então, a vida dela dividia-se entre a loja e o rapaz. Era protetora ao ponto de lhe vigiar cada passo.

Talvez por isso Bernardo se sentisse radiante naquela noite. Era a primeira vez que saía sem supervisores, sem regras, sem horários impostos. Vestiu um polo branco, calças de sarja bege e sapatilhas. Observou-se ao espelho, passou perfume e despediu-se.

Assim que entrou no carro abriu as janelas e mudou a estação da rádio. O ar fresco da noite e a música deram-lhe uma sensação de liberdade inesperada. Conduzia com prudência, mas desfrutava cada quilómetro.

Combinara encontrar-se com o amigo na discoteca K7, ponto intermédio entre as suas casas. Um morava em Paio Pires, o outro em Almada.

Quando estacionou, reconheceu o carro do Jorge. Antes de o avisar, permaneceu alguns minutos dentro do veículo a observar o movimento. Raparigas passavam em grupos animados. Não era apenas o ambiente que o atraía, mas também aquele desfile improvisado de juventude e confiança.

Uma delas prendeu-lhe a atenção.

Ruiva, sardenta, com um ar estrangeiro. Passou perto do carro e deixou no ar um perfume leve que o deixou momentaneamente suspenso.

‒ Uau. Parece que alguém ficou enfeitiçado.

Bernardo sobressaltou-se. Jorge aproximara-se sem que ele desse conta.

‒ Aquela é de outro nível ‒ confessou.

Jorge riu-se.

‒ Nem penses nisso. Aquela beleza já tem dono.

Apontou discretamente para a porta da discoteca, onde um homem enorme observava o movimento.

‒ O namorado?

‒ Exato.

Bernardo avaliou-o à distância.

‒ Credo. Parecem a Bela e o Monstro.

‒ E olha que o Monstro não tem sentido de humor.

Entraram.

O interior da discoteca não era particularmente elegante, mas pulsava de energia. A música vibrava no peito, as luzes cortavam a penumbra e o ar estava pesado. Bernardo estranhou o volume, pouco habituado àquele ambiente, mas aos poucos deixou-se envolver.

Encostaram-se ao bar.

Num dos ecrãs gigantes passavam provas de hipismo. No outro, desfiles de moda. As funcionárias usavam bodies justos que acentuavam as curvas. Os garçons circulavam de tronco nu, a pele brilhante sob as luzes.

‒ Aqui lavam-se os olhos ‒ comentou Bernardo.

‒ E muito dinheiro ‒ respondeu Jorge.

Conversaram algum tempo, entre goles e observações gritadas por cima da música.

Pouco depois, Bernardo inclinou-se para o ouvido do amigo.

‒ Vou lá fora respirar um pouco. E ver os cavalos.

Saiu.

O ar da noite soube-lhe a liberdade. A música tornou-se um eco distante. Caminhou alguns metros até vislumbrar as cavalariças.

Nesse momento cruzou-se novamente com a ruiva. Olhou-a por um segundo a mais do que devia.

Quando se virou, encontrou o brutamontes diante de si.

O homem apontou-lhe dois dedos em forma de pistola e sorriu de forma fria.

Bernardo engoliu em seco e desviou o olhar. Em vez de seguir para as estrebarias, mudou de direção e fingiu ir para o carro.

Enquanto caminhava, reparou num movimento estranho.

Um homem falava ao telemóvel perto de uma porta lateral da discoteca. Entrou rapidamente e saiu instantes depois com um volume pesado nos braços. Ao mesmo tempo, um carro aproximou-se pelas traseiras, com os faróis apagados.

Algo estava a acontecer.

Bernardo aproximou-se discretamente, escondendo-se entre carros estacionados. As roupas claras não ajudavam, mas a curiosidade falou mais alto.

Dois homens trocaram um saco volumoso. Conversaram pouco. Movimentos rápidos, olhares vigilantes.

Não percebeu exatamente o que era, mas parecia uma transação ilegal. Talvez drogas. Talvez substâncias para dopar cavalos. O pensamento atravessou-lhe a mente sem grande lógica.

Sentiu as pernas tremerem.

Ainda assim tirou o telemóvel e começou a filmar.

A distância e a escuridão tornavam as imagens pouco nítidas, mas era melhor do que nada.

Terminou o vídeo e enviou-o à mãe quase por impulso. Talvez como prova, talvez como instinto de proteção.

Depois escreveu rapidamente ao Jorge:

Vou-me embora.

Guardou o telemóvel e caminhou para o carro.

Dois homens surgiram de repente.

Um empurrou-o contra a porta.

O outro arrancou-lhe o telefone das mãos e atirou-o ao chão. O aparelho partiu-se em dois.

‒ Estás com sorte ‒ murmurou um deles.

‒ Foi só o telefone. Podias ser tu.

Bernardo não respondeu. Apenas acenou e afastou-se.

Entrou no carro com as mãos a tremer.

Ligou o motor e conduziu em direção a casa. O coração ainda batia descontrolado. A sua primeira saída noturna estava longe de ser aquilo que imaginara.

Pensou na mãe.

Ela devia ter recebido o vídeo. Explicar-lhe-ia tudo quando chegasse.

Estacionou na praceta atrás do prédio onde vivia e saiu do carro. A escadaria que descia até à porta da rua parecia comprimir-se sob os seus passos, conduzindo-o suavemente ao seu destino.

Um carro aproximou-se lentamente.

Parou à sua frente.

A janela desceu.

Dois clarões rasgaram a noite.

Bernardo caiu antes mesmo de compreender que a sua primeira saída noturna seria também a última.

abril 2026

Na Prateleira da Letra S

Estou há um ano numa biblioteca antiga e empoeirada. O tempo aqui não passa — acumula-se, como pó sobre as memórias.

A minha capa é dura e tem letras desenhadas com uma beleza quase esquecida. O meu título é “O Poder Mágico das Palavras”.

A prateleira onde me encontro está repleta de outros livros. À noite, quando tudo fica em silêncio e só os morcegos rasgam o ar escuro, nós ganhamos vida e contamos histórias uns aos outros.

São serões muito divertidos. Podemos viajar e ver o mundo através das páginas dos compêndios. O pior é o cheiro pesado do papel velho e das páginas amareladas de alguns dos colegas de prateleira.

Estou junto dos autores da letra S. O Principezinho, meu parceiro do lado esquerdo, é o mais requisitado de sempre. Está sempre a sair do lugar. É muito famoso. Dizem que é o terceiro mais lido no mundo.

Um dia, um menino pegou nele e em mim ao mesmo tempo. Sentou-se, muito quieto, e folheou-nos do princípio ao fim. Gostei muito da sensação. Senti-me respirar, página a página, e, por vezes, o dedinho dele até acariciava as minhas linhas.

No fim, quando se cansou, veio colocar-me de novo na prateleira… mas levou O Principezinho. Senti a falta dele. A estante pareceu mais fria nessa noite.

Dormiu fora uma semana. Quando voltou, as letras da minha capa quase tremiam de alegria. Nessa noite, contou-nos as aventuras que vivera nas mãos do menino: parques, jardins, criaturas fantásticas e paisagens deslumbrantes.

Mas confessou algo em voz baixa: teve saudades de nós.

Queria partilhar a sua história e ouvir as nossas. Disse que descobrira que o verdadeiro poder de um livro não está apenas nas palavras, mas naquilo que se acende dentro de quem o lê, na sua capacidade de inspirar e ensinar através da imaginação, levando cada leitor por caminhos improváveis e aventuras inesquecíveis.
Nessa noite, ensinou-nos algo simples e imenso: nós, os livros, somos pura magia.

Nessa noite, compreendi finalmente: nós, os livros, não somos papel.
Somos portas entreabertas à espera de alguém que tenha coragem de entrar.

E, desde então, nunca mais deixei de esperar que alguém escolha a prateleira da letra S — entre Antoine de Saint-Exupéry e José Saramago —… porque há histórias que só existem quando alguém tem coragem de as acordar.

março 2026

Este mês deixo-vos o conto que ganhou o desafio de janeiro do Clube dos Writers

A cor do silêncio

Comecei pela tela em branco como quem encara uma janela fechada. Não era a primeira vez que pintava, mas era a primeira vez depois de tudo. A morte da minha mãe deixara a casa intacta e o meu olhar deslocado. Os móveis permaneciam no mesmo sítio, as chávenas alinhadas na prateleira, o relógio cumpria o seu dever circular, tique… taque…, costurando o silêncio da sala. Só eu é que já não cabia ali da mesma maneira.

A tela respirava diante de mim com um silêncio de hospital. Branco-clínico. Branco-que-não-perdoa. Molhei o pincel em azul-cobalto e hesitei. O primeiro traço é sempre uma espécie de traição: ao que imaginámos, ao que tememos, ao que fomos. Ainda assim, avancei. O azul abriu-se como uma veia mansa sobre o linho, uma fenda líquida no inverno da superfície.

Não pintei o mar. Pintei a ausência dele.

Desde criança que a minha mãe dizia que eu misturava cores como quem mistura memórias. «Nunca deites fora o resto da paleta», aconselhava. «É no resto que mora o inesperado.» Na altura eu sorria, sem perceber que falava da vida. Hoje, ao raspar com a espátula os vestígios de verde-oliva e ocre-queimado, senti que estava a revolver os restos do que fomos. As cores antigas recusavam-se a desaparecer. Transformavam-se.

O começo não foi o dia em que ela partiu. O começo foi este instante em que decidi não pintar o retrato que todos esperavam. Durante semanas, tentei esboçar-lhe o rosto: as rugas delicadas junto aos olhos, o cabelo preso num gesto prático, a boca sempre prestes a dizer o que eu ainda não sabia ouvir. Mas cada tentativa resultava rígida, como se a memória se deixasse fotografar, mas não tocar.

Percebi então que recomeçar não era repetir o contorno conhecido. Era aceitar que o rosto que procuro já não coincide com o que recordo.

Troquei o pincel largo por um mais fino. Acrescentei amarelo-nápoles ao azul. A cor abriu-se num verde-incerto, cor de promessas tímidas. Pintei uma linha oblíqua a atravessar a tela, quase imperceptível, como a cicatriz que me atravessa por dentro. Não representava nada concreto. Era apenas uma direção.

A casa continuava igual, mas eu começava a deslocar-me dentro dela. O ateliê improvisado na antiga sala de jantar cheirava a terebintina e café frio. A luz da tarde entrava pela janela com um pó dourado, pousando na tela como se quisesse participar. Pela primeira vez, não senti que estava a trabalhar sobre uma perda. Senti que estava a abrir uma porta.

O passado não se reorganiza em caixas etiquetadas. Espalha-se como tinta derramada. Podemos limpá-lo apressadamente ou aprender a integrá-lo na composição. Escolhi a segunda hipótese. Com um pano, esfumei parte do azul-inicial. A mancha perdeu intensidade, ganhou profundidade. Onde antes havia um corte brusco, surgiu uma transição quase respirável.

Talvez seja isso um recomeço: não apagar a cor anterior, mas permitir que dialogue com a seguinte.

Lembrei-me de uma tarde em que, adolescente, rasguei uma tela por frustração. A minha mãe não ralhou. Aproximou-se, tocou o rasgão com a ponta dos dedos e disse: «Agora tens duas hipóteses. Deitas fora ou transformas em outra coisa.» Na manhã seguinte, ajudou-me a coser o tecido e pintámos sobre a cicatriz. O quadro ganhou relevo, uma espécie de geografia acidentada que o tornava único.

Olhei para a minha tela atual e compreendi que estava a coser de novo.

A figura começou a insinuar-se sem que eu a planeasse. Não era um retrato, mas uma silhueta em movimento, quase a sair da margem esquerda para o centro. Não tinha rosto definido. Era feita de sobreposições: azul sobre verde, verde sobre amarelo, pequenas pulsações de vermelho escondidas nas bordas. Uma presença em trânsito.

Enquanto pintava, percebi que a minha relação com a memória se alterava. Já não procurava o contorno exato do que recordava. Procurava verdade. E a verdade, como a tinta, precisa de camadas.

O branco-inicial deixara de ser ameaça. Tornara-se espaço de respiração entre as cores. Deixei zonas por preencher, intervalos luminosos onde o olhar pudesse descansar. Aprendi que o silêncio, afinal, é outra forma de cor. A minha mãe nunca teve medo do vazio. «O vazio é o que permite que a forma exista», dizia. Talvez eu estivesse, finalmente, a compreender.

Quando me afastei alguns passos, vi que a tela não contava a história da perda, mas a da deslocação. A figura parecia avançar para uma zona mais clara, como quem atravessa um nevoeiro e descobre que a luz não estava fora, mas misturada na própria bruma.

Não chorei. Também não sorri. Senti apenas uma espécie de alinhamento silencioso, como se as peças internas tivessem encontrado nova disposição. A casa continuava a mesma. O relógio persistia no seu compasso contínuo. Mas eu já não estava no mesmo lugar simbólico. Não era a filha órfã diante de um passado imutável. Era alguém que escolhia a próxima cor.

Lavei os pincéis com cuidado. A água turvou-se num tom indefinido, memória líquida de todas as escolhas feitas naquela tarde. Pensei em começar outra tela no dia seguinte. Não para substituir esta, mas para continuar o diálogo.

Porque cada quadro é um começo disfarçado de continuidade.

Antes de apagar a luz, voltei a olhar a pintura. A silhueta parecia mais nítida na penumbra, como se ganhasse coragem na ausência de claridade excessiva. Talvez os recomeços sejam assim: não explosões visíveis, mas deslocações subtis que, de repente, tornam impossível regressar ao ponto anterior.

Fechei a porta do ateliê com a sensação de que algo em mim tinha sido redesenhado. A tela secaria durante a noite, fixando as camadas, consolidando as transições. Eu também.

E, pela primeira vez desde a perda, o dia seguinte não me pareceu uma repetição. Pareceu uma superfície em branco, não ameaçadora, mas disponível — à espera do primeiro traço que, inevitavelmente, me transformaria outra vez.

fevereiro 2026

Conto de natal para o Clube dos Writers que ficou no top 3

À espera de ser removida

Na ala de internamento, o Natal entrava apenas pelo som. Um tilintar distante, demasiado alegre, atravessava as portas como um erro de cálculo. Não havia árvores nem enfeites naquele piso, apenas o brilho neutro das lâmpadas e o cheiro persistente a desinfetante que anulava qualquer tentativa de memória.

Eu estava sentada junto à janela, de costas para a cama, a contar os carros que via circular na estrada. A cidade continuava, indiferente à suspensão daquele quarto. Em cima da mesa, alguém deixara um pequeno embrulho, mal dobrado, feito do mesmo papel fino dos kits informativos do hospital, rasgado nos cantos. O papel parecia demasiado frágil para conter algo que importasse.

Ninguém mencionara a época natalícia. Ainda assim, impunha-se como uma expectativa muda, como se algo tivesse de acontecer apenas porque o calendário assim o exigia. O relógio marcava as horas com insistência. Ali, o tempo não avançava; acumulava-se.

Havia dias em que eu já não distinguia espera de resistência. Permanecer ali tornara-se um ato sem nome, uma fidelidade sem promessa explícita. Não se tratava de acreditar; tratava-se de não abandonar.

Quando a porta se abriu, não levantei a cabeça. Pelo som dos passos, soube que não era uma visita. A enfermeira entrou com a economia de gestos de sempre, confirmou os dados, ajustou o soro, evitou olhar para a cama. Só então reparou no embrulho.

— Ah — disse, como se tivesse encontrado um erro menor. — Ainda bem que alguém se lembrou.

Pegou nele sem pedir licença e colocou-o na mesa de cabeceira. O papel fez um som breve, seco, ao tocar na madeira. Não era um som festivo, mas administrativo, como tudo ali.

— É Natal — acrescentou, com uma inflexão quase interrogativa. — Mesmo aqui.

Não respondi. A cama permaneceu imóvel. A enfermeira sorriu um sorriso curto, profissional, e tentou compor o cenário com gestos mínimos: alinhou a jarra vazia, puxou a cadeira, abriu a cortina apenas o suficiente para deixar entrar uma luz pálida, sem tempo.

— Às vezes ajuda — disse. — Fingir que é um dia normal, um pouco menos pesado, ou apenas suportável.

Percebeu então que falara de mais. O silêncio que se seguiu não foi incómodo; foi espesso. Fechou o sorriso, anotou algo no tablet e dirigiu-se à saída. Antes de sair, voltou a cabeça:

— Boas Festas.

Não me dignei a responder. A frase ficou suspensa, sem corpo onde pousar. Quando a porta se fechou, o quarto pareceu encolher. O embrulho continuava intacto, como uma promessa sem nome.

A médica entrou pouco depois, sem casaco, o cabelo preso de forma descuidada. Trazia um dossiê fino, desses que não anunciam nada. Cumprimentou-me com um aceno e aproximou-se da cama. Falou baixo, não por respeito, mas por prudência.

— Os últimos exames chegaram agora.

Abriu o dossiê, percorreu as folhas com o dedo, deteve-se num parágrafo sublinhado.

— Não houve alterações significativas.

Esperei.

— O quadro mantém-se.

A frase bastou. O chão desapareceu. Restava a aritmética do tempo.

— Vamos manter o plano — continuou. — Não faz sentido antecipar cenários.

Falava no plural, mas não havia ali nenhuma decisão partilhada. Fechou o dossiê e pousou-o na mesa, ao lado do embrulho. Nenhum dos dois pertencia verdadeiramente àquele espaço.

— Amanhã funcionamos em regime mínimo.

Assenti. Não havia perguntas quando tudo estava suspenso. À saída, ainda disse:

— Se preferir, pode levar o embrulho. Às vezes, estes símbolos criam expectativas desnecessárias.

Fiquei sozinha. A cama permanecia imóvel. O embrulho era leve: um par de meias cinzentas, ainda com etiqueta. Voltei a pousá-lo. Não era o objecto que incomodava, mas a suposição.

Sentei-me junto à janela. Lá fora, o mundo preparava-se para parar. Ali, nada parava. O vento arrastava folhas secas, os carros acumulavam-se na azáfama das últimas lembranças e sucediam-se em fila. As pessoas nem imaginavam o que se passava ali dentro, não se lembravam dos que não têm abrigo nem afeto.

Pensei que talvez o Natal nunca tivesse sido outra coisa senão isto: um intervalo frágil, um lugar improvável onde a vida insiste quando tudo aconselha o contrário.

Apaguei a luz do teto. Ficou apenas a de presença. Foi então que reparei numa pequena grinalda acesa junto à janela. Piscava de forma irregular. Uma lâmpada estava fundida; as outras insistiam.

Não a desliguei.

Antes de sair, aproximei-me da cama. Baixei a voz, como se ele pudesse ouvir:

— Estou aqui, e sei que é difícil. Mas tenho esperança, talvez ainda possas renascer, confio e aguardo um milagre neste dia que celebra o nascimento de Jesus.

O silêncio acompanhou-me até ao corredor. Os cânticos regressaram, baixos, como uma oração que não pede, apenas espera. Alguém ria ao fundo. Eu seguia sozinha, mas já não em deserto.

No quarto, a luz piscava. Não chamava, não explicava. Persistia. Como a pedra diante do sepulcro: ainda no lugar certo, ainda fechada, mas à espera de ser removida.

janeiro 2026

 

Assobio

O avô tinha mãos grandes e pacientes, mãos de quem aprendera a esperar pelo tempo das coisas. Trazia consigo um cheiro a café morno e pão acabado de partir, um cheiro de manhãs lentas, e caminhava devagar, como se cada passo precisasse de permissão.

Quando o neto lhe estendia a bola, ele sorria primeiro e só depois chutava, nunca com força, para que o jogo coubesse inteiro na tarde. Assobiava baixo, um som curto e redondo, mais próximo de um segredo do que de uma melodia. O menino seguia esse assobio como quem segue um fio invisível, certo de que ali estava o centro do mundo.

O rapaz era magro, de joelhos sempre feridos e olhos atentos. Jogava à bola como se fosse uma conversa, esperando a resposta do outro antes de avançar. Assobiava sem saber porquê, porque o avô assobiava, e isso bastava. Havia nele uma alegria sem nome, dessas que não fazem barulho, mas iluminam. Quando o avô morreu, aos oito anos, o rapaz não chorou alto. Guardou o silêncio como quem fecha uma porta com cuidado. O assobio ficou suspenso no ar e a bola perdeu o jeito de rolar. Ninguém reparou.

Só ele.

A escola surgiu como uma obrigação sem promessa. As salas eram frias, mesmo no verão, e os dias repetiam-se com a mesma lição por aprender. O rapaz sentava-se junto à janela, não para olhar o quadro, mas para medir o tempo pela passagem das nuvens. Os colegas falavam alto, riam, empurravam-se. Ele escutava pouco. Trazia dentro de si um silêncio antigo, ainda fresco demais para ser partilhado. A bola ficara em casa, encostada a um canto, a ganhar pó como um objecto esquecido que já não sabe para que serve.

Os professores diziam que era distraído, que lhe faltava vontade. Ele não sabia explicar que a vontade se tinha ausentado com o avô, numa tarde sem aviso. Cumpria os dias como quem atravessa um campo sem trilhos, passo após passo, à espera de chegar a algum lado. Não chegou. A escola terminou sem saudade e sem planos.

Anos depois, quando já era homem e a rotina lhe pesava nos ombros, ainda trazia no corpo a memória desses gestos. Não sabia, mas era por isso que, ao ouvir de novo um assobio, algo nele se endireitava por dentro. Como se o avô tivesse regressado, não em carne, mas em som.

Começou a trabalhar numa fábrica à beira da estrada nacional. O som das máquinas era constante, um ruído espesso que ocupava tudo. Aprendeu depressa os gestos repetidos, a precisão mecânica, o corpo a funcionar antes do pensamento. Os dias eram iguais, as semanas indistintas. Entrava cedo, saía cansado, com o cheiro do metal colado à roupa. Não havia ali espaço para assobios. Nem para a bola. A vida tornara-se um corredor estreito, sem desvios.

Nada o motivava, mas também nada doía em excesso. Era um cansaço manso, desses que não gritam. Até ao dia em que, ao regressar a casa, encontrou o cão perdido junto ao portão. Olhava-o como quem pede licença para existir. O cão era pequeno, de pêlo claro e olhos atentos. Não ladrava. Limitava-se a observar, com a cabeça ligeiramente inclinada, como se estudasse aquele homem antes de decidir confiar. O rapaz ficou parado alguns segundos, sem saber o que fazer. Depois agachou-se. O cão aproximou-se com cautela e encostou-lhe o focinho à mão, um gesto simples, definitivo. Não houve festa, nem alegria súbita. Houve apenas companhia.

Levou-o para casa. Deu-lhe água, restos de comida, um lugar no chão da cozinha. O cão seguiu-o para todo o lado, como se tivesse encontrado ali um centro. À noite, quando o rapaz se sentou à mesa, percebeu que não estava sozinho. O silêncio mudou de forma. Já não pesava tanto.

Nos dias seguintes, começou a chegar mais cedo a casa. Falava pouco, mas passou a reparar. No modo como o cão dormia, no ritmo da respiração, na fidelidade sem perguntas. Levava-o a passear depois do trabalho. Caminhavam juntos, sem pressa, como se ambos estivessem a reaprender o mundo. Uma tarde, sem pensar, o rapaz assobiou. O som saiu curto, inseguro, e morreu depressa no ar. O cão parou, olhou para ele, como se tivesse ouvido um nome. O rapaz ficou quieto. Não repetiu. Mas naquela noite, pela primeira vez em muitos anos, sonhou com o avô.

Pouco tempo depois, cruzou-se com uma mulher que procurava a cadela que lhe tinha fugido. Trazia na voz uma inquietação contida e nas mãos a trela vazia, enrolada sem perceber. O rapaz mostrou-lhe o caminho que costumava fazer com o cão. Não prometeram nada. Limitaram-se a procurar.

Caminharam lado a lado, atentos ao chão, aos arbustos, aos sons breves que podiam ser sinal. Falaram pouco. O silêncio entre ambos não era constrangedor, antes necessário. O cão avançava à frente, farejando, como se também ele soubesse o que estava em causa. A certa altura, um assobio escapou ao rapaz, baixo, quase por engano. O som ficou suspenso. A mulher olhou-o de relance, sem dizer nada.

Encontraram a cadela junto ao rio, presa entre pedras e silvas, cansada mas ilesa. Quando ela correu para a dona, houve um alívio simples, sem lágrimas. Ficaram ali alguns minutos, a recuperar o fôlego. A mulher agradeceu. O rapaz encolheu os ombros, como se aquilo tivesse sido pouco. Antes de se separarem, trocaram um sorriso breve, desses que ficam.

Nos dias seguintes, voltaram a encontrar-se. Primeiro por acaso, depois por vontade. Passeavam os cães juntos. A cadela corria à frente, o cão seguia-a fiel. Havia saltos, voltas, uma alegria sem cálculo. Os humanos sorriram por simpatia, depois por curiosidade. Falaram do acaso, do susto, da sorte. A conversa cresceu devagar, como quem não quer assustar o que nasce.

O rapaz assobiava às vezes, ainda baixo, ainda tímido O som já não lhe parecia estranho. A mulher ouvia e sorria, sem comentar. O som parecia abrir pequenas clareiras no dia.

Quando o filho nasceu, anos depois, o rapaz percebeu que algo se fechava e algo recomeçava. O menino tinha o olhar curioso e mãos inquietas. Um dia, empurrou-lhe uma bola. O rapaz pegou nela, hesitou por um segundo e depois chutou, sem força.

 A bola rolou direita, como se nunca tivesse parado. O menino riu. O rapaz assobiou. E, por um instante breve e inteiro, o avô voltou a caminhar ao lado deles.