Mês a mês
Decidi criar este espaço dentro do blogue para escrever, todos os meses, um pouco do que me habita. Histórias, pensamentos, impressões. Um exercício de partilha e de companhia, porque acredito que as palavras podem aproximar-nos.
setembro 2026
Crónica com termos de “Lobos” de Tânia Ganho

As manhãs de Setembro chegam sempre com um sopro agreste, como zurzidos pelo vendaval, coartando os movimentos de quem ousa ainda acreditar na doçura do estio. Há quem saia à rua com capuzes-de-frade, mas eu procuro antes a pele das crianças, onde a vida deixa sinais: a lunula discreta nas unhas, as efélides que salpicam o rosto, uma ou outra lentigem que resiste ao esquecimento solar.
O mundo escreve-se também no corpo. Um tiridoma mais antigo, uma escarificação quase apagada, a lembrança que a pele tem daquilo que o coração tentou esconder. O tempo é um arqueólogo persistente.
É também o tempo do regresso às escolas. As mochilas pesam, não tanto pelos livros, mas pela expectativa de quem volta a sentar-se frente ao quadro. Nos corredores ecoa a pressa, o entusiasmo tímido, o cheiro das páginas novas que prometem futuros ainda em branco.
E lá fora, no campo, os dias anunciam a vindima. Os cestos enchem-se devagar, mãos calejadas recolhem o fruto sob um sol menos inclemente, mas firme. Há um rumor de festa que se mistura com o mosto, promessa de vinho, de conversas prolongadas, de gargantas que se aquecem no inverno próximo.
E contudo, nem tudo é peso ou cicatriz. No ar levanta-se uma poalha de luz, tênue e cintilante, pousando sobre as ervas agrestes que persistem: morriões-azuis, táguedas de caule erguido, pequenas insurreições da cor.
À beira do tanque, um axolotle observa-me com olhos de um tempo anterior à memória. Nada em círculos, serpeando como se soubesse que a vida é sempre um regresso ao mesmo ponto, mas com outra respiração.
Na alma, porém, fica-me esta sensação inextricável: de que, por mais que o vento fira, há sempre sobrevivência. Porque a natureza, mesmo fustigada, ergue-se indemne, lembrando-nos que também nós, frágeis, podemos atravessar o vendaval.
E talvez seja esta a lição de Setembro: regressar — às aulas, às vindimas, às marcas do corpo — não é recomeçar do nada, mas aprender a continuar. Como a vinha que dá fruto depois da poda, como o caderno que se abre em branco, como o coração que insiste, mesmo ferido, em não desistir do seu próprio outono.
agosto 2026
A Geografia do Instante
Uma viagem entre cidades e ausências



Gosto imenso de viajar. Não por fuga, mas por excesso de vida que não cabe no mesmo lugar.
Sozinha aproveito escapadinhas sempre que o calendário permite, mas as férias têm de ser obrigatoriamente em agosto. Em 2023 fiz um circuito pelas capitais do Norte da Europa. Parti a 16 de agosto rumo a Estocolmo, com a luz ainda morna a cair sobre o dia e o corpo já em movimento antes de saber porquê.
Depois de me instalar, fui conhecer a cidade. Comecei pela Stortorget, uma praça medieval, a mais antiga da cidade e o coração da Cidade Velha. Um dos edifícios mais conhecidos é o da antiga Bolsa de Valores de Estocolmo que, atualmente, acolhe o Museu do Prémio Nobel, a Academia Sueca e a Biblioteca Nobel. Demorei-me na zona dos prémios literários e senti um orgulho discreto ao ver o nosso laureado entre tantos outros nomes. Ainda passei pela catedral e, por fim, dei uma volta de metro, onde as estações são decoradas e são consideradas a “galeria de arte mais longa do mundo”.
No segundo dia visitei o Palácio Real de Estocolmo, o Kungliga Slottet, e o Kungsträdgården, o parque central da cidade. Passei também pelo Östermalms Saluhall, um mercado sofisticado, cheio de frutas frescas, queijos e peixe, com restaurantes elegantes. Faz lembrar o nosso antigo Mercado da Ribeira, agora Time Out Market.
Segui depois para a Drottninggatan, a “Rua da Rainha”, uma rua pedonal com cerca de 1,5 km, cheia de lojas, cafés, bares e restaurantes.
Visitei ainda o Skansen, museu ao ar livre com casas típicas e tradição folclórica. Passei ao lado do Museu ABBA, mas apenas fiquei pela fotografia. Tudo ali parecia leve, quase encenado para a memória.
No terceiro dia, antes de rumar a Copenhaga, ainda fui ao Stadshuset, a Câmara Municipal de Estocolmo.
Não fiz grandes despesas, porque tinha adquirido o Stockholm Pass, o que tornou gratuitas todas as visitas que selecionei.
Os escandinavos ocupam os espaços verdes como quem respira luz. Aproveitam cada raio de sol com uma disciplina quase silenciosa.
Nos bares, as televisões eram janelas abertas para um mesmo coração. A Suécia avançava no campeonato mundial feminino e as pessoas viviam isso como se o país inteiro respirasse ao mesmo ritmo. Havia mãos no ar, abraços entre desconhecidos, cervejas esquecidas em cima do balcão. A emoção não precisava de tradução. Era simples, quase infantil, como um grito que não se aprende a conter.
Lembro-me da luz a cair sobre os edifícios como uma água fria e dourada. E lembro-me da sensação estranha de estar dentro de algo que não me pertencia, mas que me acolhia na mesma.
Encantou-me esta cidade. A luz parece nunca se gastar, a água está em todo o lado e há uma ordem quase irreal que se instala no silêncio.



Rumei a Copenhaga com expectativas elevadas. A Pequena Sereia, (Den Lille Havfrue),— inspirada no conto de Hans Christian Andersen, o Nyhavn — porto e postal vivo da cidade — tudo parecia prometer continuidade.
Mas foi aqui que tudo mudou.
A cidade estava em ebulição. Monumentos encerrados, ruas desviadas, vozes em muitas línguas. A semana LGBT+ pintava os espaços de cor e movimento, como se a cidade tivesse decidido mudar de pele. Ao mesmo tempo, preparava-se a visita do presidente da Ucrânia. E, como se não bastasse, o Ironman atravessava ruas e pontes, transformando a cidade num corpo em esforço contínuo.
De repente, tudo se tornou instável.
O telemóvel acendeu-se com uma simplicidade cruel. Não havia metáforas possíveis. Apenas uma frase. Apenas um nome. E depois o silêncio.
A rua continuava cheia. As bicicletas passavam. As bandeiras moviam-se como se nada tivesse mudado. Mas eu já não estava no mesmo lugar.
Não sei quanto tempo fiquei parada. Sei apenas que comecei a andar sem direção, como se o corpo tivesse decidido continuar aquilo que a mente já não conseguia acompanhar.
A cidade parecia mais alta. O som mais distante. A alegria dos outros tornara-se uma maré ao contrário, onde eu me afundava sem me mexer.
Com a notícia da morte de um familiar, o espírito de euforia desvaneceu.
Hoje quase não me lembro dos monumentos fechados, nem dos percursos alterados pelo Ironman, nem dos discursos que enchiam os telejornais. Lembro-me apenas da água imóvel do canal, da luz dourada a escorrer sobre as fachadas de Nyhavn e daquela mensagem no ecrã do telemóvel.
Foi ali, entre uma cidade em festa e uma ausência irreparável, que percebi isto: há lugares onde tiramos fotografias. E há lugares onde uma parte de nós fica para sempre.



E depois veio Oslo.
Oslo não gritava. Respirava.
As ruas tinham uma calma obstinada, quase vegetal. As pessoas moviam-se sem pressa, como se o tempo ali tivesse aprendido a ser discreto. Havia bicicletas, parques, água e céu aberto. Tudo parecia alinhado com uma ideia silenciosa de bem-estar, como se viver ali fosse uma forma de ordem interior.
Chamam-lhe hygge, esse conforto nórdico que não se explica, apenas se sente. Eu entendi-o ali, não como conceito, mas como atmosfera.
Oslo ensinava outra coisa: que o mundo pode ser leve sem ser vazio.
Mas eu já não conseguia habitar totalmente nenhum desses lugares.
Em Estocolmo, senti pertença. Em Copenhaga, excesso. Em Oslo, suspensão. E foi nessa suspensão que percebi que a viagem não tinha acabado. Apenas tinha mudado de direção. Porque há cidades que se visitam. E há outras que nos visitam a nós — sem pedir licença. E havia ainda uma última coisa que Oslo não me contou, mas que ficou a suspender-se no ar, leve e fria, como neve antes de tocar o chão.
E ficou apenas isso: um silêncio em suspensão, como se a vontade de evasão e de regresso continuassem em mim.
julho 2026
Desafio vencedor do mês de abril do Clube dos Writers

O Rangido das Distâncias Antigas
1. A memória que ainda tem corpo
Lembro os livros Desastres de Sofia e A trinta diabos, e tal como as protagonistas, eu era endiabrada, levada da breca, por isso não tinha autorização para passar férias longe dos meus pais. Ninguém me segurava. Subia árvores, postes, corria, fugia. As férias grandes limitavam-se a idas à praia e depois a uma quinzena, no máximo, na aldeia dos pais.
Mas não são esses livros o objeto da minha memória de hoje.
A aldeia chama-se Meda de Mouros. A minha casa ficava mesmo em frente ao único café da aldeia. Era mais do que café: era correio, era telefone, era mercearia improvisada, era ponto de encontro. Tudo passava por ali, dando a impressão de que a vida decidira caber num só balcão de madeira gasta. O sino da porta anunciava chegadas com um som metálico e breve, quase tímido. Lá dentro, o cheiro misturava café quente, tabaco e vinho. Os homens encostavam-se ao balcão como quem encosta o tempo, devagar, a falar das colheitas, das notícias que vinham de longe em voz emprestada. As mulheres entravam mais depressa, pediam o essencial, trocavam duas palavras e saíam como se o mundo lá fora estivesse sempre à espera. Eu via tudo do pequeno varandim da entrada, com os cotovelos pousados no parapeito, a rua a estender-se como um palco repetido. Às vezes, alguém chamava pelo meu nome e eu atravessava a rua a correr, sentindo que aquele pequeno centro da aldeia era, afinal, o coração de tudo. E vivia ali, entre o varandim e o som das vozes, num vaivém constante onde o mundo inteiro parecia caber. Sempre que alguém entrava ou saía, tinha de cumprimentar. Era regra de boa educação, nem que já o tivesse feito recentemente.
A rua era comprida e quieta. Todos sabiam que lá havia criançada a brincar, e os poucos carros ou motoretas passavam com todo o cuidado. A aldeia não tinha saída. Acabava no rio, onde a água fresca se fazia ouvir pelo caneiro, cheirava a vida e a roupa lavada. Eu, à porta de casa, esperava encostada ao muro, a sentir o pó fino, a língua a provar o sal da pele. Ao longe, ouvia-se o ranger das rodas de madeira e o bater compassado dos cascos. Era o som que me puxava para a frente, à maneira de alguém a gritar por mim.
Quando a carroça surgia, levantava-se uma poeira leve, dourada. O burro vinha de cabeça baixa, paciente, e o homem erguia o braço para me ver melhor. Eu já corria. Saltava para o bordo de trás com uma agilidade que me parecia natural, num gesto que o corpo parecia conhecer há muito guiado por um caminho antigo. As mãos agarravam a madeira áspera. O cheiro era uma mistura de palha, suor e terra — um perfume rude que me enchia o peito.
«Segura-te bem, rapariga!», diziam uns, sem parar; outros, «Diacho da garota!», com todo o respeito, provavelmente com vontade de blasfemar. Mas, por questões de família, eu era considerada “uma menina”.
Segurava-me. E, nesse instante, o mundo mudava de lugar. A rua deixava de ser chão e passava a ser estrada. O vento batia-me na cara com um gosto a liberdade. As casas deslizavam devagar, tímidas, quase envergonhadas. Eu ria, sem saber porquê, com os olhos a arder de luz. Havia uma música no ranger das rodas, uma cadência que me embalava. Sentia o corpo inteiro acordado, atento, vivo.
Às vezes, eram bois, uma parelha grande, com chocalhos graves que batiam no ar como um coração lento. O som entrava-me pelos ossos. Eu subia na mesma, mais devagar. O carro era mais alto, o mundo parecia mais amplo. Alguns lavradores já abrandavam quando me viam no cimo, junto à casa dos avós paternos ou no fundo, perto da casa da minha madrinha. Nessa casa repleta de hortênsias, o grande tanque de rega, de água sempre límpida e quase imóvel, ficava ao lado do tanque da roupa, mais pequeno, num silêncio atento ao passar do tempo. Sobre ele, um caramanchão de videiras abria-se em braços verdes, formando um teto vivo que filtrava a luz em manchas douradas. O sol entrava aos bocados, desenhando tremores na superfície da água. Ali, tudo parecia mais lento, mais fresco, com o mundo inteiro em surdina. Eu aproximava-me devagar, atraída por aquela transparência que convidava ao toque. Muitas vezes, sem pensar, atirava-me para dentro, ainda vestida, num impulso que não sabia explicar. O choque da água fria subia-me pelo corpo como um espanto feliz, e o riso vinha antes do medo. Às vezes, havia repreensão, outras vezes, apenas um suspiro resignado, como quem já conhecia o meu destino molhado. No móvel da entrada, a minha mãe deixava sempre uma muda de roupa para esta «cabrita» que não parava quieta. E eu saía dali leve, com gotas a escorrer-me pelo cabelo, com o caramanchão a deixar-me uma pequena memória de frescura e desobediência.
Por norma, para ir ao rio, ia-se a pé ou, mais tarde, no trator do tio Augusto. No percurso, lambuzávamo-nos com amoras, nódoas difíceis, mas isso não me incomodava, até porque adorava o anúncio do detergente: «Quero lá saber, a minha mamã lava a roupa com Juá».
A mocidade da terra, onde quase todos eram familiares ou primos de primos, dirigia-se ao Alva entre risos, cantorias e farnel. As minhas primas mais chegadas falavam da ida à feira de carro comigo e com os meus pais. Falavam do carro como algo fascinante, das portas que fechavam com um clique limpo, de bancos macios. Eu não entendia. O carro, para mim, não despertava interesse; aliás, era símbolo de enjoos frequentes. A estrada da Beira, de curva e contracurva, era fatal para o Gregório. Vibravam sempre que o meu pai as convidava: «Vamos dar uma volta de carro?», e os olhos ficavam brilhantes. Eu encolhia os ombros. Olhava para a rua, para o trilho de pó, para o eco dos cascos que ainda vibrava no ar. Não queria trocar o mundo aberto por uma coisa que não respirava.
Parte inferior do formulário
2. O que só compreendi depois
Volto à mesma rua, agora de fora para dentro. A memória ainda tem pó, som e calor, mas ganhou distância. Vejo a criança que fui, pendurada numa carroça, com uma alegria quase teimosa. Na altura, não compreendia a surpresa das minhas primas, nem o brilho com que falavam dos carros. Achava estranho preferirem uma caixa silenciosa a um corpo em movimento.
Hoje, percebo que cada uma de nós defendia o que lhe faltava.
Eu vivia cercada por aquela rua sem saída, por um tempo que parecia circular, por um horizonte que terminava no rio. A carroça era a minha fuga. Não pela velocidade, mas pela sensação de atravessar. O vento na cara, o cheiro da palha, o ranger das rodas — tudo me dizia que havia mais mundo do que aquele que eu via todos os dias. A carroça não era atraso. Era passagem.
Elas, pelo contrário, estavam fartas da rotina do campo, do peso dos dias iguais, do ritmo lento que se colava à pele. O carro prometia outra coisa: distância rápida, portas que se fecham, um dentro protegido, um fora que corre. Para elas, o carro era promessa. Para mim, era limite.
Na altura, não tinha palavras para isto. Tinha apenas o corpo. Um corpo que escolhia o vento e recusava o vidro. Um corpo que preferia o barulho irregular ao silêncio domesticado. Um corpo que não queria chegar depressa; queria sentir.
«Segura-te bem, rapariga!», dizia o homem. E eu segurava-me, mas, na verdade, era o momento que me segurava a mim.
Hoje, percebo que aquele gesto — subir sem pedir, agarrar-me às carroças, confiar no equilíbrio — foi um ensaio de vida. Um treino discreto para escolhas futuras. A coragem não apareceu de repente, como um relâmpago. Foi-se instalando devagar, com o ritmo das rodas, com o hábito de avançar apesar do risco pequeno.
Também compreendo melhor o meu fascínio pela novidade. Não nasceu de um capricho. Nasceu de uma rua direita que acabava no rio. Quando o mundo nos parece curto, inventamos extensão. Quando o horizonte é estreito, o desejo alarga-se. Viajar, hoje, não é fugir do que sou. É continuar aquele movimento antigo de atravessar.
E há outra coisa que só agora entendo: o valor do contraste. Sem as minhas primas, talvez eu não tivesse percebido a singularidade do meu encantamento. O espanto delas funcionava como um espelho invertido.
Ao não entenderem o meu fascínio, obrigavam-me a senti-lo com mais nitidez. E eu, ao não entender o delas, defendia o meu com mais convicção. Crescíamos no atrito suave das diferenças.
Se volto à cena, vejo mais do que via. Vejo o homem cansado, o animal paciente, o peso do dia a cair sobre a madeira. Vejo também a leveza improvável de uma criança que transforma aquilo em festa. A realidade era dura, sim. Mas havia uma brecha por onde entrava a alegria.
Hoje, entendo que a memória não é apenas um lugar onde volto. É uma ferramenta que me lê. Mostra-me padrões, insiste em perguntas, afina decisões. Aquela rua sem saída ensinou-me a procurar saídas. Aquelas carroças ensinaram-me a gostar do caminho.
E, no entanto, guardo uma imagem simples, quase muda. Eu, de mãos agarradas à madeira áspera, o vento a empurrar-me o rosto, e a rua a abrir-se devagar — com uma saída escondida que, afinal, sempre estivera ali.
A aldeia já não tem crianças a correr na rua. As vozes são outras, mais baixas, mais lentas. O café continua lá, mas já não é apenas balcão de encontros e recados. É também lugar de quem resiste ao tempo, de quem se senta para beber café e trocar larachas, agora com o telemóvel pousado ao lado e o wifi a atravessar as conversas. O sino da porta continua a tocar, mas já não abre o mesmo mundo de antes. Lá dentro, fala-se devagar, com palavras que parecem ter aprendido a poupar-se. E eu olho e reconheço o lugar, mas ele já não me reconhece a mim.
Hoje, já não se brinca na rua, não se vive só do campo. Há carros e camiões que passam depressa, a levantar pó e pressa. Vão e vêm ao rio buscar areia, e a paisagem já não é lugar de infância: é apenas passagem de máquinas. Que bom que era viver sem preocupações, sempre a desafiar o destino, com arranhões que não doíam e o ar livre a servir de redoma verdadeira — tão diferente dos dias de hoje, em que tantos vivem protegidos até do vento, como se a vida pudesse ser vivida sem contacto com a pele do mundo.
junho 2026
trouxe-me uma alegria especial.
O concurso “Escrever no Escuro”, uma iniciativa literária promovida pela associação cultural A Palavra, pelo Município de Oeiras e pelas Bibliotecas de Oeiras, distinguiu o meu conto com o 2.º lugar.
A cerimónia de entrega de prémios e o lançamento da antologia da primeira edição terão lugar no dia 18 de julho de 2026, no Centro Cultural de Barcarena.
É uma enorme satisfação ver este trabalho reconhecido e integrar esta antologia. Cada página escrita começa sempre no escuro, mas, por vezes, encontra a luz de quem a lê. E é por isso que vale a pena continuar a escrever.

Espectro de residente
Quando Karl chegou a Portugal, trazia duas malas, um dicionário de bolso e uma confiança ingénua na palavra “simples”.
Karl era alemão. Isso explica muita coisa, mas não o suficiente.
Veio para Lisboa trabalhar remotamente, convencido de que resolver papéis seria uma questão de organização, três formulários e uma senha. Na sua cabeça, o Estado era uma máquina: introduz-se o pedido, obtém-se o resultado. Havia uma certa poesia nisso, pensava ele, uma coreografia invisível entre cidadão e sistema. No terceiro dia, percebeu que em Portugal a poesia existia, mas era de outro género. Mais próxima do surrealismo. Precisava de um número de contribuinte. Algo básico. Fundamental. Um primeiro passo.
— É rápido — disseram-lhe.
Karl acreditou.
Na repartição, tirou uma senha. O número era A138. O painel mostrava A12. Sentou-se. Observou. Um senhor idoso dormia com a serenidade de quem já desistira de lutar contra o tempo. Uma mulher discutia com o ar, como se estivesse a ensaiar um argumento invisível. Um bebé chorava com convicção política.
Duas horas depois, Karl ainda acreditava no sistema.
Quatro horas depois, começou a acreditar em forças superiores.
Quando finalmente foi chamado, aproximou-se com a postura de quem vai selar um destino.
— Bom dia — disse, num português cauteloso.
A funcionária olhou-o como quem avalia uma peça fora de catálogo — Documento de identificação.
Karl entregou o passaporte.
— Comprovativo de morada.
Karl sorriu. Tinha preparado tudo. Entregou o contrato de arrendamento. A funcionária folheou o papel com desconfiança.
— Isto não serve.
Karl piscou os olhos, como se pudesse ajustar a realidade.
— Não serve?
— Precisa de um comprovativo.
— Mas… isto é o contrato da casa.
— Pois, mas não comprova.
Karl sentiu um ligeiro deslocamento interior. Algo entre a lógica e o abismo.
— O que comprova, então?
A funcionária encolheu os ombros, com a elegância de quem domina o inexplicável.
— Uma fatura.
— Mas eu acabei de chegar.
— Então não tem fatura.
— Não.
— Então não pode comprovar.
Karl saiu da repartição com uma sensação nova. Não era frustração. Era mais profundo. Era como se tivesse sido gentilmente informado de que a realidade não funcionava ali da mesma maneira.
Nos dias seguintes, Karl mergulhou num percurso iniciático. Descobriu que precisava de um representante fiscal para obter o número de contribuinte. Para ter um representante fiscal, precisava de… um número de contribuinte. Riu-se pela primeira vez. Um riso curto, nervoso, quase respeitoso. Havia uma beleza circular naquele raciocínio. Uma espécie de filosofia prática: para existir, é preciso já existir. Num café, explicou a situação ao empregado, que ouvia enquanto limpava o balcão com movimentos lentos, como quem já viu tudo.
— Isso resolve-se — disse o homem. — Conheço um primo que trata disso.
Karl não conhecia o primo, mas começou a perceber que em Portugal o sistema oficial coexistia com outro, mais eficiente, mais humano, mais… primo.
Aceitou.
Dois dias depois, tinha o número de contribuinte. Não sabia exatamente como.
Não perguntou. Aprendeu, então, a primeira regra não escrita: em Portugal, a solução raramente está no sítio onde se espera, mas aparece sempre onde se conversa.
Com o tempo, Karl foi acumulando pequenas vitórias administrativas. Abriu conta no banco, registou-se no centro de saúde, conseguiu até marcar uma reunião numa entidade pública sem sofrer colapso emocional.
Mas o verdadeiro teste chegou com a carta.
Era branca, oficial, intimidante. Informava que faltava um documento no processo do número de contribuinte. Sem esse documento, o número poderia ser anulado.
Dirigiu-se novamente à repartição.
Tirou uma senha. Sentou-se. Esperou.
Desta vez, o painel parecia avançar mais devagar. Ou talvez fosse ele que já não tinha pressa. Observou o mesmo teatro humano: o sono resignado, a indignação criativa, a infância em protesto.
Quando foi chamado, apresentou a carta.
A funcionária leu.
— Falta o comprovativo de morada.
Karl sorriu. Um sorriso calmo, quase terno.
— Já trouxe.
Entregou uma fatura de eletricidade.
A funcionária analisou.
— Está em nome de outra pessoa.
— O senhorio.
— Então não serve.
Karl respirou fundo. Mas não se irritou. Havia, naquele momento, uma clareza nova.
— O que posso fazer?
A funcionária olhou-o com um leve cansaço, mas também com algo próximo de respeito.
— Tem de pedir uma declaração.
— A quem?
— Ao senhorio.
Karl assentiu. Saiu. Não discutiu. Não questionou. Pediu a declaração. Voltou.
Esperou. Entregou. Desta vez, serviu.
Quando saiu da repartição, com o processo finalmente regularizado, Karl não sentiu triunfo. Sentiu transformação.
Portugal tinha-lhe ensinado algo que a Alemanha nunca lhe mostrara: que a ordem é uma ilusão confortável, mas a adaptação é uma arte.
Meses depois, um amigo alemão visitou-o.
— E então? — perguntou. — É fácil tratar das coisas aqui?
Karl pensou por um momento.
Olhou a cidade, os elétricos, as pessoas que atravessavam a rua fora da passadeira com uma confiança quase metafísica.
Sorriu.
— É simples — disse. — Só não é direto.
O amigo franziu a testa.
— Não percebo.
Karl pousou a mão no ombro dele, com a serenidade de quem já atravessou um labirinto.
— Vais perceber.
E, pela primeira vez desde que chegara, Karl não tinha pressa nenhuma de explicar. Tirou do bolso a carteira. Lá dentro, alinhados com um rigor quase irónico, estavam os seus novos documentos: número de contribuinte, cartão do banco, comprovativos, declarações. Pequenas vitórias impressas em papel oficial.
Faltava apenas uma coisa.
— Ainda não tenho residência fiscal definitiva — disse, com naturalidade.
— Porquê?
Karl encolheu ligeiramente os ombros.
— Falta um documento.
O amigo riu-se.
— Qual?
Karl olhou em volta, como se a cidade pudesse ouvir.
As pessoas passavam, os cafés enchiam, alguém discutia ao telefone com uma intensidade doméstica. Tudo funcionava. Tudo avançava. Tudo, de alguma forma, acontecia.
Depois respondeu:
— Prova de que estou cá.
O amigo franziu o sobrolho.
— Mas tu estás cá.
Karl sorriu, desta vez sem ironia.
— Eu sei.
Fez uma pausa breve, quase solene.
— Eles é que ainda não.
maio 2026
O conto que se segue foi premiado pela Casa do Educador, um reconhecimento que muito me honra e que agora partilho convosco.

Saída fatídica
Bernardo ia pela primeira vez a uma discoteca. O que mais o intrigava naquele lugar não eram as luzes nem a música, mas os cavalos. A discoteca A2 ficava junto a umas cavalariças e, segundo lhe tinham contado, era possível ver os animais nas pastagens mesmo durante a noite.
Apaixonado pela natureza e pelos animais, a ideia fascinava-o. Estudante universitário e escuteiro desde criança, raramente saía à noite. Apesar de já ser maior de idade, pediu autorização à mãe para ir com um amigo que frequentava o espaço e solicitou também o carro emprestado.
Bernardete hesitou antes de responder.
‒ Não demores a voltar. Sabes que não descanso enquanto não chegas. E presta atenção aos outros na estrada. Ah, e cuidado com a bebida. Tu não estás habituado.
Bernardo sorriu.
‒ Já sou crescido, mãe. O teu boguinhas vai voltar em perfeito estado.
‒ Quero o carro intacto, mas prefiro que sejas tu a chegar são e salvo.
Bernardete tivera o filho tarde e criara-o praticamente sozinha. O pai desaparecera pouco depois do nascimento. Desde então, a vida dela dividia-se entre a loja e o rapaz. Era protetora ao ponto de lhe vigiar cada passo.
Talvez por isso Bernardo se sentisse radiante naquela noite. Era a primeira vez que saía sem supervisores, sem regras, sem horários impostos. Vestiu um polo branco, calças de sarja bege e sapatilhas. Observou-se ao espelho, passou perfume e despediu-se.
Assim que entrou no carro abriu as janelas e mudou a estação da rádio. O ar fresco da noite e a música deram-lhe uma sensação de liberdade inesperada. Conduzia com prudência, mas desfrutava cada quilómetro.
Combinara encontrar-se com o amigo na discoteca K7, ponto intermédio entre as suas casas. Um morava em Paio Pires, o outro em Almada.
Quando estacionou, reconheceu o carro do Jorge. Antes de o avisar, permaneceu alguns minutos dentro do veículo a observar o movimento. Raparigas passavam em grupos animados. Não era apenas o ambiente que o atraía, mas também aquele desfile improvisado de juventude e confiança.
Uma delas prendeu-lhe a atenção.
Ruiva, sardenta, com um ar estrangeiro. Passou perto do carro e deixou no ar um perfume leve que o deixou momentaneamente suspenso.
‒ Uau. Parece que alguém ficou enfeitiçado.
Bernardo sobressaltou-se. Jorge aproximara-se sem que ele desse conta.
‒ Aquela é de outro nível ‒ confessou.
Jorge riu-se.
‒ Nem penses nisso. Aquela beleza já tem dono.
Apontou discretamente para a porta da discoteca, onde um homem enorme observava o movimento.
‒ O namorado?
‒ Exato.
Bernardo avaliou-o à distância.
‒ Credo. Parecem a Bela e o Monstro.
‒ E olha que o Monstro não tem sentido de humor.
Entraram.
O interior da discoteca não era particularmente elegante, mas pulsava de energia. A música vibrava no peito, as luzes cortavam a penumbra e o ar estava pesado. Bernardo estranhou o volume, pouco habituado àquele ambiente, mas aos poucos deixou-se envolver.
Encostaram-se ao bar.
Num dos ecrãs gigantes passavam provas de hipismo. No outro, desfiles de moda. As funcionárias usavam bodies justos que acentuavam as curvas. Os garçons circulavam de tronco nu, a pele brilhante sob as luzes.
‒ Aqui lavam-se os olhos ‒ comentou Bernardo.
‒ E muito dinheiro ‒ respondeu Jorge.
Conversaram algum tempo, entre goles e observações gritadas por cima da música.
Pouco depois, Bernardo inclinou-se para o ouvido do amigo.
‒ Vou lá fora respirar um pouco. E ver os cavalos.
Saiu.
O ar da noite soube-lhe a liberdade. A música tornou-se um eco distante. Caminhou alguns metros até vislumbrar as cavalariças.
Nesse momento cruzou-se novamente com a ruiva. Olhou-a por um segundo a mais do que devia.
Quando se virou, encontrou o brutamontes diante de si.
O homem apontou-lhe dois dedos em forma de pistola e sorriu de forma fria.
Bernardo engoliu em seco e desviou o olhar. Em vez de seguir para as estrebarias, mudou de direção e fingiu ir para o carro.
Enquanto caminhava, reparou num movimento estranho.
Um homem falava ao telemóvel perto de uma porta lateral da discoteca. Entrou rapidamente e saiu instantes depois com um volume pesado nos braços. Ao mesmo tempo, um carro aproximou-se pelas traseiras, com os faróis apagados.
Algo estava a acontecer.
Bernardo aproximou-se discretamente, escondendo-se entre carros estacionados. As roupas claras não ajudavam, mas a curiosidade falou mais alto.
Dois homens trocaram um saco volumoso. Conversaram pouco. Movimentos rápidos, olhares vigilantes.
Não percebeu exatamente o que era, mas parecia uma transação ilegal. Talvez drogas. Talvez substâncias para dopar cavalos. O pensamento atravessou-lhe a mente sem grande lógica.
Sentiu as pernas tremerem.
Ainda assim tirou o telemóvel e começou a filmar.
A distância e a escuridão tornavam as imagens pouco nítidas, mas era melhor do que nada.
Terminou o vídeo e enviou-o à mãe quase por impulso. Talvez como prova, talvez como instinto de proteção.
Depois escreveu rapidamente ao Jorge:
Vou-me embora.
Guardou o telemóvel e caminhou para o carro.
Dois homens surgiram de repente.
Um empurrou-o contra a porta.
O outro arrancou-lhe o telefone das mãos e atirou-o ao chão. O aparelho partiu-se em dois.
‒ Estás com sorte ‒ murmurou um deles.
‒ Foi só o telefone. Podias ser tu.
Bernardo não respondeu. Apenas acenou e afastou-se.
Entrou no carro com as mãos a tremer.
Ligou o motor e conduziu em direção a casa. O coração ainda batia descontrolado. A sua primeira saída noturna estava longe de ser aquilo que imaginara.
Pensou na mãe.
Ela devia ter recebido o vídeo. Explicar-lhe-ia tudo quando chegasse.
Estacionou na praceta atrás do prédio onde vivia e saiu do carro. A escadaria que descia até à porta da rua parecia comprimir-se sob os seus passos, conduzindo-o suavemente ao seu destino.
Um carro aproximou-se lentamente.
Parou à sua frente.
A janela desceu.
Dois clarões rasgaram a noite.
Bernardo caiu antes mesmo de compreender que a sua primeira saída noturna seria também a última.
abril 2026

Na Prateleira da Letra S
Estou há um ano numa biblioteca antiga e empoeirada. O tempo aqui não passa — acumula-se, como pó sobre as memórias.
A minha capa é dura e tem letras desenhadas com uma beleza quase esquecida. O meu título é “O Poder Mágico das Palavras”.
A prateleira onde me encontro está repleta de outros livros. À noite, quando tudo fica em silêncio e só os morcegos rasgam o ar escuro, nós ganhamos vida e contamos histórias uns aos outros.
São serões muito divertidos. Podemos viajar e ver o mundo através das páginas dos compêndios. O pior é o cheiro pesado do papel velho e das páginas amareladas de alguns dos colegas de prateleira.
Estou junto dos autores da letra S. O Principezinho, meu parceiro do lado esquerdo, é o mais requisitado de sempre. Está sempre a sair do lugar. É muito famoso. Dizem que é o terceiro mais lido no mundo.
Um dia, um menino pegou nele e em mim ao mesmo tempo. Sentou-se, muito quieto, e folheou-nos do princípio ao fim. Gostei muito da sensação. Senti-me respirar, página a página, e, por vezes, o dedinho dele até acariciava as minhas linhas.
No fim, quando se cansou, veio colocar-me de novo na prateleira… mas levou O Principezinho. Senti a falta dele. A estante pareceu mais fria nessa noite.
Dormiu fora uma semana. Quando voltou, as letras da minha capa quase tremiam de alegria. Nessa noite, contou-nos as aventuras que vivera nas mãos do menino: parques, jardins, criaturas fantásticas e paisagens deslumbrantes.
Mas confessou algo em voz baixa: teve saudades de nós.
Queria partilhar a sua história e ouvir as nossas. Disse que descobrira que o verdadeiro poder de um livro não está apenas nas palavras, mas naquilo que se acende dentro de quem o lê, na sua capacidade de inspirar e ensinar através da imaginação, levando cada leitor por caminhos improváveis e aventuras inesquecíveis.
Nessa noite, ensinou-nos algo simples e imenso: nós, os livros, somos pura magia.
Nessa noite, compreendi finalmente: nós, os livros, não somos papel.
Somos portas entreabertas à espera de alguém que tenha coragem de entrar.
E, desde então, nunca mais deixei de esperar que alguém escolha a prateleira da letra S — entre Antoine de Saint-Exupéry e José Saramago —… porque há histórias que só existem quando alguém tem coragem de as acordar.
março 2026
Este mês deixo-vos o conto que ganhou o desafio de janeiro do Clube dos Writers
A cor do silêncio

Comecei pela tela em branco como quem encara uma janela fechada. Não era a primeira vez que pintava, mas era a primeira vez depois de tudo. A morte da minha mãe deixara a casa intacta e o meu olhar deslocado. Os móveis permaneciam no mesmo sítio, as chávenas alinhadas na prateleira, o relógio cumpria o seu dever circular, tique… taque…, costurando o silêncio da sala. Só eu é que já não cabia ali da mesma maneira.
A tela respirava diante de mim com um silêncio de hospital. Branco-clínico. Branco-que-não-perdoa. Molhei o pincel em azul-cobalto e hesitei. O primeiro traço é sempre uma espécie de traição: ao que imaginámos, ao que tememos, ao que fomos. Ainda assim, avancei. O azul abriu-se como uma veia mansa sobre o linho, uma fenda líquida no inverno da superfície.
Não pintei o mar. Pintei a ausência dele.
Desde criança que a minha mãe dizia que eu misturava cores como quem mistura memórias. «Nunca deites fora o resto da paleta», aconselhava. «É no resto que mora o inesperado.» Na altura eu sorria, sem perceber que falava da vida. Hoje, ao raspar com a espátula os vestígios de verde-oliva e ocre-queimado, senti que estava a revolver os restos do que fomos. As cores antigas recusavam-se a desaparecer. Transformavam-se.
O começo não foi o dia em que ela partiu. O começo foi este instante em que decidi não pintar o retrato que todos esperavam. Durante semanas, tentei esboçar-lhe o rosto: as rugas delicadas junto aos olhos, o cabelo preso num gesto prático, a boca sempre prestes a dizer o que eu ainda não sabia ouvir. Mas cada tentativa resultava rígida, como se a memória se deixasse fotografar, mas não tocar.
Percebi então que recomeçar não era repetir o contorno conhecido. Era aceitar que o rosto que procuro já não coincide com o que recordo.
Troquei o pincel largo por um mais fino. Acrescentei amarelo-nápoles ao azul. A cor abriu-se num verde-incerto, cor de promessas tímidas. Pintei uma linha oblíqua a atravessar a tela, quase imperceptível, como a cicatriz que me atravessa por dentro. Não representava nada concreto. Era apenas uma direção.
A casa continuava igual, mas eu começava a deslocar-me dentro dela. O ateliê improvisado na antiga sala de jantar cheirava a terebintina e café frio. A luz da tarde entrava pela janela com um pó dourado, pousando na tela como se quisesse participar. Pela primeira vez, não senti que estava a trabalhar sobre uma perda. Senti que estava a abrir uma porta.
O passado não se reorganiza em caixas etiquetadas. Espalha-se como tinta derramada. Podemos limpá-lo apressadamente ou aprender a integrá-lo na composição. Escolhi a segunda hipótese. Com um pano, esfumei parte do azul-inicial. A mancha perdeu intensidade, ganhou profundidade. Onde antes havia um corte brusco, surgiu uma transição quase respirável.
Talvez seja isso um recomeço: não apagar a cor anterior, mas permitir que dialogue com a seguinte.
Lembrei-me de uma tarde em que, adolescente, rasguei uma tela por frustração. A minha mãe não ralhou. Aproximou-se, tocou o rasgão com a ponta dos dedos e disse: «Agora tens duas hipóteses. Deitas fora ou transformas em outra coisa.» Na manhã seguinte, ajudou-me a coser o tecido e pintámos sobre a cicatriz. O quadro ganhou relevo, uma espécie de geografia acidentada que o tornava único.
Olhei para a minha tela atual e compreendi que estava a coser de novo.
A figura começou a insinuar-se sem que eu a planeasse. Não era um retrato, mas uma silhueta em movimento, quase a sair da margem esquerda para o centro. Não tinha rosto definido. Era feita de sobreposições: azul sobre verde, verde sobre amarelo, pequenas pulsações de vermelho escondidas nas bordas. Uma presença em trânsito.
Enquanto pintava, percebi que a minha relação com a memória se alterava. Já não procurava o contorno exato do que recordava. Procurava verdade. E a verdade, como a tinta, precisa de camadas.
O branco-inicial deixara de ser ameaça. Tornara-se espaço de respiração entre as cores. Deixei zonas por preencher, intervalos luminosos onde o olhar pudesse descansar. Aprendi que o silêncio, afinal, é outra forma de cor. A minha mãe nunca teve medo do vazio. «O vazio é o que permite que a forma exista», dizia. Talvez eu estivesse, finalmente, a compreender.
Quando me afastei alguns passos, vi que a tela não contava a história da perda, mas a da deslocação. A figura parecia avançar para uma zona mais clara, como quem atravessa um nevoeiro e descobre que a luz não estava fora, mas misturada na própria bruma.
Não chorei. Também não sorri. Senti apenas uma espécie de alinhamento silencioso, como se as peças internas tivessem encontrado nova disposição. A casa continuava a mesma. O relógio persistia no seu compasso contínuo. Mas eu já não estava no mesmo lugar simbólico. Não era a filha órfã diante de um passado imutável. Era alguém que escolhia a próxima cor.
Lavei os pincéis com cuidado. A água turvou-se num tom indefinido, memória líquida de todas as escolhas feitas naquela tarde. Pensei em começar outra tela no dia seguinte. Não para substituir esta, mas para continuar o diálogo.
Porque cada quadro é um começo disfarçado de continuidade.
Antes de apagar a luz, voltei a olhar a pintura. A silhueta parecia mais nítida na penumbra, como se ganhasse coragem na ausência de claridade excessiva. Talvez os recomeços sejam assim: não explosões visíveis, mas deslocações subtis que, de repente, tornam impossível regressar ao ponto anterior.
Fechei a porta do ateliê com a sensação de que algo em mim tinha sido redesenhado. A tela secaria durante a noite, fixando as camadas, consolidando as transições. Eu também.
E, pela primeira vez desde a perda, o dia seguinte não me pareceu uma repetição. Pareceu uma superfície em branco, não ameaçadora, mas disponível — à espera do primeiro traço que, inevitavelmente, me transformaria outra vez.
fevereiro 2026
Conto de natal para o Clube dos Writers que ficou no top 3
À espera de ser removida
Na ala de internamento, o Natal entrava apenas pelo som. Um tilintar distante, demasiado alegre, atravessava as portas como um erro de cálculo. Não havia árvores nem enfeites naquele piso, apenas o brilho neutro das lâmpadas e o cheiro persistente a desinfetante que anulava qualquer tentativa de memória.
Eu estava sentada junto à janela, de costas para a cama, a contar os carros que via circular na estrada. A cidade continuava, indiferente à suspensão daquele quarto. Em cima da mesa, alguém deixara um pequeno embrulho, mal dobrado, feito do mesmo papel fino dos kits informativos do hospital, rasgado nos cantos. O papel parecia demasiado frágil para conter algo que importasse.
Ninguém mencionara a época natalícia. Ainda assim, impunha-se como uma expectativa muda, como se algo tivesse de acontecer apenas porque o calendário assim o exigia. O relógio marcava as horas com insistência. Ali, o tempo não avançava; acumulava-se.
Havia dias em que eu já não distinguia espera de resistência. Permanecer ali tornara-se um ato sem nome, uma fidelidade sem promessa explícita. Não se tratava de acreditar; tratava-se de não abandonar.
Quando a porta se abriu, não levantei a cabeça. Pelo som dos passos, soube que não era uma visita. A enfermeira entrou com a economia de gestos de sempre, confirmou os dados, ajustou o soro, evitou olhar para a cama. Só então reparou no embrulho.
— Ah — disse, como se tivesse encontrado um erro menor. — Ainda bem que alguém se lembrou.
Pegou nele sem pedir licença e colocou-o na mesa de cabeceira. O papel fez um som breve, seco, ao tocar na madeira. Não era um som festivo, mas administrativo, como tudo ali.
— É Natal — acrescentou, com uma inflexão quase interrogativa. — Mesmo aqui.
Não respondi. A cama permaneceu imóvel. A enfermeira sorriu um sorriso curto, profissional, e tentou compor o cenário com gestos mínimos: alinhou a jarra vazia, puxou a cadeira, abriu a cortina apenas o suficiente para deixar entrar uma luz pálida, sem tempo.
— Às vezes ajuda — disse. — Fingir que é um dia normal, um pouco menos pesado, ou apenas suportável.
Percebeu então que falara de mais. O silêncio que se seguiu não foi incómodo; foi espesso. Fechou o sorriso, anotou algo no tablet e dirigiu-se à saída. Antes de sair, voltou a cabeça:
— Boas Festas.
Não me dignei a responder. A frase ficou suspensa, sem corpo onde pousar. Quando a porta se fechou, o quarto pareceu encolher. O embrulho continuava intacto, como uma promessa sem nome.
A médica entrou pouco depois, sem casaco, o cabelo preso de forma descuidada. Trazia um dossiê fino, desses que não anunciam nada. Cumprimentou-me com um aceno e aproximou-se da cama. Falou baixo, não por respeito, mas por prudência.
— Os últimos exames chegaram agora.
Abriu o dossiê, percorreu as folhas com o dedo, deteve-se num parágrafo sublinhado.
— Não houve alterações significativas.
Esperei.
— O quadro mantém-se.
A frase bastou. O chão desapareceu. Restava a aritmética do tempo.
— Vamos manter o plano — continuou. — Não faz sentido antecipar cenários.
Falava no plural, mas não havia ali nenhuma decisão partilhada. Fechou o dossiê e pousou-o na mesa, ao lado do embrulho. Nenhum dos dois pertencia verdadeiramente àquele espaço.
— Amanhã funcionamos em regime mínimo.
Assenti. Não havia perguntas quando tudo estava suspenso. À saída, ainda disse:
— Se preferir, pode levar o embrulho. Às vezes, estes símbolos criam expectativas desnecessárias.
Fiquei sozinha. A cama permanecia imóvel. O embrulho era leve: um par de meias cinzentas, ainda com etiqueta. Voltei a pousá-lo. Não era o objecto que incomodava, mas a suposição.
Sentei-me junto à janela. Lá fora, o mundo preparava-se para parar. Ali, nada parava. O vento arrastava folhas secas, os carros acumulavam-se na azáfama das últimas lembranças e sucediam-se em fila. As pessoas nem imaginavam o que se passava ali dentro, não se lembravam dos que não têm abrigo nem afeto.
Pensei que talvez o Natal nunca tivesse sido outra coisa senão isto: um intervalo frágil, um lugar improvável onde a vida insiste quando tudo aconselha o contrário.
Apaguei a luz do teto. Ficou apenas a de presença. Foi então que reparei numa pequena grinalda acesa junto à janela. Piscava de forma irregular. Uma lâmpada estava fundida; as outras insistiam.
Não a desliguei.
Antes de sair, aproximei-me da cama. Baixei a voz, como se ele pudesse ouvir:
— Estou aqui, e sei que é difícil. Mas tenho esperança, talvez ainda possas renascer, confio e aguardo um milagre neste dia que celebra o nascimento de Jesus.
O silêncio acompanhou-me até ao corredor. Os cânticos regressaram, baixos, como uma oração que não pede, apenas espera. Alguém ria ao fundo. Eu seguia sozinha, mas já não em deserto.
No quarto, a luz piscava. Não chamava, não explicava. Persistia. Como a pedra diante do sepulcro: ainda no lugar certo, ainda fechada, mas à espera de ser removida.
janeiro 2026
Assobio
O avô tinha mãos grandes e pacientes, mãos de quem aprendera a esperar pelo tempo das coisas. Trazia consigo um cheiro a café morno e pão acabado de partir, um cheiro de manhãs lentas, e caminhava devagar, como se cada passo precisasse de permissão.
Quando o neto lhe estendia a bola, ele sorria primeiro e só depois chutava, nunca com força, para que o jogo coubesse inteiro na tarde. Assobiava baixo, um som curto e redondo, mais próximo de um segredo do que de uma melodia. O menino seguia esse assobio como quem segue um fio invisível, certo de que ali estava o centro do mundo.
O rapaz era magro, de joelhos sempre feridos e olhos atentos. Jogava à bola como se fosse uma conversa, esperando a resposta do outro antes de avançar. Assobiava sem saber porquê, porque o avô assobiava, e isso bastava. Havia nele uma alegria sem nome, dessas que não fazem barulho, mas iluminam. Quando o avô morreu, aos oito anos, o rapaz não chorou alto. Guardou o silêncio como quem fecha uma porta com cuidado. O assobio ficou suspenso no ar e a bola perdeu o jeito de rolar. Ninguém reparou.
Só ele.
A escola surgiu como uma obrigação sem promessa. As salas eram frias, mesmo no verão, e os dias repetiam-se com a mesma lição por aprender. O rapaz sentava-se junto à janela, não para olhar o quadro, mas para medir o tempo pela passagem das nuvens. Os colegas falavam alto, riam, empurravam-se. Ele escutava pouco. Trazia dentro de si um silêncio antigo, ainda fresco demais para ser partilhado. A bola ficara em casa, encostada a um canto, a ganhar pó como um objecto esquecido que já não sabe para que serve.
Os professores diziam que era distraído, que lhe faltava vontade. Ele não sabia explicar que a vontade se tinha ausentado com o avô, numa tarde sem aviso. Cumpria os dias como quem atravessa um campo sem trilhos, passo após passo, à espera de chegar a algum lado. Não chegou. A escola terminou sem saudade e sem planos.
Anos depois, quando já era homem e a rotina lhe pesava nos ombros, ainda trazia no corpo a memória desses gestos. Não sabia, mas era por isso que, ao ouvir de novo um assobio, algo nele se endireitava por dentro. Como se o avô tivesse regressado, não em carne, mas em som.
Começou a trabalhar numa fábrica à beira da estrada nacional. O som das máquinas era constante, um ruído espesso que ocupava tudo. Aprendeu depressa os gestos repetidos, a precisão mecânica, o corpo a funcionar antes do pensamento. Os dias eram iguais, as semanas indistintas. Entrava cedo, saía cansado, com o cheiro do metal colado à roupa. Não havia ali espaço para assobios. Nem para a bola. A vida tornara-se um corredor estreito, sem desvios.
Nada o motivava, mas também nada doía em excesso. Era um cansaço manso, desses que não gritam. Até ao dia em que, ao regressar a casa, encontrou o cão perdido junto ao portão. Olhava-o como quem pede licença para existir. O cão era pequeno, de pêlo claro e olhos atentos. Não ladrava. Limitava-se a observar, com a cabeça ligeiramente inclinada, como se estudasse aquele homem antes de decidir confiar. O rapaz ficou parado alguns segundos, sem saber o que fazer. Depois agachou-se. O cão aproximou-se com cautela e encostou-lhe o focinho à mão, um gesto simples, definitivo. Não houve festa, nem alegria súbita. Houve apenas companhia.
Levou-o para casa. Deu-lhe água, restos de comida, um lugar no chão da cozinha. O cão seguiu-o para todo o lado, como se tivesse encontrado ali um centro. À noite, quando o rapaz se sentou à mesa, percebeu que não estava sozinho. O silêncio mudou de forma. Já não pesava tanto.
Nos dias seguintes, começou a chegar mais cedo a casa. Falava pouco, mas passou a reparar. No modo como o cão dormia, no ritmo da respiração, na fidelidade sem perguntas. Levava-o a passear depois do trabalho. Caminhavam juntos, sem pressa, como se ambos estivessem a reaprender o mundo. Uma tarde, sem pensar, o rapaz assobiou. O som saiu curto, inseguro, e morreu depressa no ar. O cão parou, olhou para ele, como se tivesse ouvido um nome. O rapaz ficou quieto. Não repetiu. Mas naquela noite, pela primeira vez em muitos anos, sonhou com o avô.
Pouco tempo depois, cruzou-se com uma mulher que procurava a cadela que lhe tinha fugido. Trazia na voz uma inquietação contida e nas mãos a trela vazia, enrolada sem perceber. O rapaz mostrou-lhe o caminho que costumava fazer com o cão. Não prometeram nada. Limitaram-se a procurar.
Caminharam lado a lado, atentos ao chão, aos arbustos, aos sons breves que podiam ser sinal. Falaram pouco. O silêncio entre ambos não era constrangedor, antes necessário. O cão avançava à frente, farejando, como se também ele soubesse o que estava em causa. A certa altura, um assobio escapou ao rapaz, baixo, quase por engano. O som ficou suspenso. A mulher olhou-o de relance, sem dizer nada.
Encontraram a cadela junto ao rio, presa entre pedras e silvas, cansada mas ilesa. Quando ela correu para a dona, houve um alívio simples, sem lágrimas. Ficaram ali alguns minutos, a recuperar o fôlego. A mulher agradeceu. O rapaz encolheu os ombros, como se aquilo tivesse sido pouco. Antes de se separarem, trocaram um sorriso breve, desses que ficam.
Nos dias seguintes, voltaram a encontrar-se. Primeiro por acaso, depois por vontade. Passeavam os cães juntos. A cadela corria à frente, o cão seguia-a fiel. Havia saltos, voltas, uma alegria sem cálculo. Os humanos sorriram por simpatia, depois por curiosidade. Falaram do acaso, do susto, da sorte. A conversa cresceu devagar, como quem não quer assustar o que nasce.
O rapaz assobiava às vezes, ainda baixo, ainda tímido O som já não lhe parecia estranho. A mulher ouvia e sorria, sem comentar. O som parecia abrir pequenas clareiras no dia.
Quando o filho nasceu, anos depois, o rapaz percebeu que algo se fechava e algo recomeçava. O menino tinha o olhar curioso e mãos inquietas. Um dia, empurrou-lhe uma bola. O rapaz pegou nela, hesitou por um segundo e depois chutou, sem força.
A bola rolou direita, como se nunca tivesse parado. O menino riu. O rapaz assobiou. E, por um instante breve e inteiro, o avô voltou a caminhar ao lado deles.
dezembro 2025
Este mês lembra a bondade e a partilha. As palavras repetem-se nas montras, nos anúncios, nos discursos públicos, como se bastasse nomeá-las para que se tornassem reais. No entanto, ao mesmo tempo, multiplicam-se os casos de desvios de fundos, de crueldade, de corrupção, de crimes e de fraudes. A generosidade parece cada vez mais um adorno sazonal, usado por conveniência, esquecido logo depois.
Já não anda meio mundo a enganar meio mundo, como dizia o meu pai; a percentagem, hoje, parece bem superior. Há um cansaço moral que se infiltra nas pequenas notícias do dia, uma erosão silenciosa da confiança, como se o chão comum se estivesse a desfazer sob os nossos pés. Parecem ser cada vez menos os justos, os piedosos, os verdadeiramente cristãos — não os que se anunciam, mas os que vivem a fé como gesto quotidiano, discreto, sem necessidade de aplauso.
O que mais me entristece não é apenas a existência do mal, sempre antigo como o mundo, mas a sua banalização. A forma como se normaliza a esperteza, o proveito próprio, o desvio ético travestido de inteligência. Há uma pedagogia silenciosa a ensinar que vencer é passar à frente, que ganhar é contornar, que sobreviver justifica quase tudo.
Sinto-me entristecida num século que, pela educação cada vez mais elevada, deveria mostrar outras mentalidades. Esperava-se mais pensamento crítico, mais empatia, mais responsabilidade colectiva. Em vez disso, cresce em mim a sensação de que se anda a regredir, não por falta de conhecimento, mas por falta de consciência. Como se soubéssemos mais, mas cuidássemos menos.
Talvez por isso este mês me pese de maneira particular. Porque Dezembro insiste na ideia de luz, e eu vejo demasiadas sombras a serem varridas para debaixo do tapete. Porque fala de partilha, e a desigualdade grita. Porque evoca o nascimento de uma esperança humilde, e o mundo responde com ruído, pressa e indiferença.
Ainda assim, recuso-me a desistir completamente do gesto pequeno. Da bondade que não faz manchetes. Da honestidade que não rende dividendos. Da fé que não precisa de palco. Talvez sejam poucos, talvez passem despercebidos, mas continuo a acreditar que é neles — nos que caminham em bicos de pés — que o mundo, apesar de tudo, ainda se sustém.
Que este mês nos lembre, mesmo na escuridão, da importância de pequenos gestos, de ternura e de cuidado. Que possamos oferecer um pouco de luz onde houver sombra, e ouvir o silêncio com atenção. E, acima de tudo, que estas festas nos tragam momentos de afeto, encontros sinceros e alguma paz interior. Boas festas, com esperança e serenidade.
Novembro 2025
Emergência Linguística: chamem o 112 da gramática!
Derivados da aderência ( ou o drama de “ir ao encontro a…”)
Há dias em que me apetece criar um serviço de emergência linguística. Um número curto, tipo 112, mas para salvar palavras em perigo. Seria algo como “Língua SOS”, com sirene discreta e prontidão imediata sempre que alguém disser, com ar seguro, que “isso vai ao encontro a”.
Sim, “ao encontro a”. A moda pegou, e agora multiplicam-se os derivados da ignorância: aderências descontroladas, encontros desorientados e um novo espécime que ameaça dominar a fauna verbal — o “derivado de” usado onde devia estar um inocente “devido a”.
Tudo agora é “derivado”. Derivado do trânsito, derivado da chuva, derivado da conjuntura, derivado do Mercúrio retrógrado. “Derivado” soa mais técnico, mais importante — parece que, dito assim, o atraso até ganha um ar científico. Já “devido” é modesto, é só português; e quem é que quer ser modesto numa frase?
Depois há a eterna confusão entre ir ao encontro de e ir de encontro a. O primeiro aproxima, o segundo choca. Mas, ao ritmo a que vamos, já nem sei se o português vai ao encontro do bom senso ou se vai de encontro à parede.
E quanto à aderência, a história é outra colagem. Houve tempo em que aderíamos a ideias, campanhas, causas. Agora, o que se vê são “aderências” às mais variadas coisas: programas, metodologias, produtos de limpeza. “Aderência” soa a coisa pegajosa — e talvez seja isso mesmo que nos está a acontecer: colamo-nos às palavras erradas e, quanto mais tentamos corrigir, mais grudamos.
O problema é que o erro, de tanto repetir-se, ganha estatuto de tendência. E a tendência, quando aparece num PowerPoint ou num reels, já ninguém ousa contrariar. “Toda a gente diz assim” — e pronto, sentença dada, gramática enterrada com honras de “uso corrente”.
Nessas alturas, respiro fundo, conto até dez e penso que a língua é viva, sim, mas há vivos que não sabem o que dizem.
Portanto, da próxima vez que alguém disser que “a reunião foi cancelada derivado da chuva e vai ao encontro a novas soluções”, talvez possamos responder com um sorriso doce, olhar paciente e uma pontinha de malícia:
— Pois claro. E que a aderência seja total.
Outubro 2025
A começar da melhor maneira – com a notícia que tinha ganhado o desafio do mês de agosto do Clube dos Writers, com o meu conto.
Partilho-o aqui convosco:
O armário, a miúda e o acaso

Eu era miúda e virei armário. Não é metáfora, não nesse dia. Foi literal: o corpo pequeno encurralado entre o tanque da roupa e a pia de despejos, e uma avalanche de copos, garrafas, vasos, tudo misturado com o estrondo que ainda hoje consigo ouvir quando fecho os olhos.
O armário não era de confiança. Parecia firme, mas era composto por dois andares: a parte de cima, leve de aspeto, mas pesada no conteúdo, pousava sobre a de baixo sem qualquer fidelidade. Eu, que tinha a mania de procurar o que estava acima do meu alcance, decidi empoleirar-me num banco para espreitar. A curiosidade era a minha forma de subir ao mundo, sempre convencida de que as prateleiras guardavam segredos.
O banco cedeu, o armário tombou, o vidro multiplicou-se em estrelas cintilantes pelo chão. Foi como se tivesse rebentado uma bomba. Eu caí com ele, mas sem me magoar. A minha pele saiu limpa, sem um risco, sem um arranhão. O barulho, esse, ficou dentro de mim, como se a memória tivesse escolhido guardar apenas o susto.
Os meus pais vieram a correr. Primeiro, o silêncio incrédulo — não sabiam se a casa ainda estava inteira. Depois, o desespero de imaginar-me esmagada sob os escombros de cristais domésticos. E, por fim, o espanto de me verem inteira, embora lívida, a respirar como quem acabara de regressar de um mergulho no mar.
Sempre achei que nesse dia a sorte se sentou comigo. Talvez um anjo trapalhão tenha dado um jeito ao ângulo do armário, talvez o banco tenha servido de escudo improvisado, ou talvez o mundo tenha, por um instante, suspendido as leis da física. Eu não me magoei. Só o armário morreu.
Às vezes, penso que esse episódio me deu a primeira lição: a vida é feita de desastres que, felizmente, para muitos, nunca chegam a acontecer.
Há acidentes que nos tocam apenas pelo susto, como ensaios de tragédia. Eu fiquei com essa impressão: que vivi um ensaio, e que a estreia oficial foi adiada.
Depois, cresci com a convicção de que nada é mais perigoso do que a curiosidade. Mas também nada é mais vital. Aquele impulso de subir ao banco, de querer ver para lá do permitido, foi o mesmo que mais tarde me levou a abrir livros escondidos, cartas guardadas em gavetas, diários que não eram meus. Talvez ainda hoje eu viva nesse risco — de tombar armários invisíveis para espreitar o que há lá em cima.
Se pudesse reescrever a cena, talvez desse outros contornos à história. Imagino-me esmagada sob um monte de copos e garrafas, mas a sair de lá vestida de vidro, como uma princesa improvisada, coroada por cacos. Ou, quem sabe, poderia ter descoberto dentro do armário um mundo secreto, como nas histórias em que os móveis escondem passagens para reinos longínquos. Em vez de cacos, teria encontrado florestas, cavalos brancos, talvez um príncipe desajeitado. Mas não. O que encontrei foi o nada — ou melhor, a prova de que o nada também pode ser um milagre.
O mais engraçado é que nunca mais consegui olhar para uma cristaleira sem lhe medir a perna. Entro em casas e calculo mentalmente: se isto tombasse, quem sobreviveria? Às vezes, penso que cada móvel é uma ameaça disfarçada, à espera de curiosidade. Noutras vezes, acho que todos os móveis do mundo conspiram para me proteger, como se tivessem feito um pacto depois daquele dia.
Os meus pais, durante anos, contaram a história às visitas. Era uma espécie de lenda doméstica: a filha endiabrada, tal como a do livro A trinta diabos de Enid Blyton, que sobreviveu a uma bomba de vidro. Eu ouvia-os repetir a narrativa, cada vez mais exagerada, e pensava se um dia eu própria acreditaria nessa versão em vez de na minha. Porque a memória também é isso: um armário que cai, mas de cada vez com um peso diferente.
Se fecho os olhos, ainda vejo o chão coberto de vidros. Mas já não tenho medo. Pelo contrário, há uma beleza no estilhaço: a luz refletida em cada pedaço, como se um arco-íris tivesse caído em fragmentos. Talvez a infância seja isso — uma sucessão de quedas que transformamos, depois, em vitrais.
E é curioso: não me lembro do cheiro, nem da cor dos vasos partidos, nem sequer do tom de voz dos meus pais naquele instante. Mas lembro-me da sensação de estar de pé, ilesa, no meio do caos e dos cacos. Como se tivesse descoberto, pela primeira vez, que sobreviver é uma arte — e que não depende só de nós.
Cresci, e muitas vezes senti que o armário ainda me acompanha. Nas escolhas arriscadas, nos amores precipitados, nas viagens sem mapa — sempre essa vertigem de cair e não me magoar. E, quando me magoei, foi como se finalmente o ensaio tivesse dado lugar à peça verdadeira. Mas mesmo aí, talvez por herança desse dia, aprendi a olhar para os cacos e a encontrar neles alguma ordem secreta.
Hoje, penso que talvez a miúda que fui nunca tenha saído de baixo do armário. Talvez ainda esteja lá, de pé, intacta, cercada de estilhaços, enquanto eu — a que escreve — não passe de uma invenção que ela sonhou para se distrair.
Porque afinal, o que é a memória senão um armário tombado?
E se volto agora a essa cena, é porque nela encontro a origem de tudo: da curiosidade que me move, da coragem inconsciente que às vezes me salva e até da mania de transformar acidentes em histórias. Se o armário não tivesse caído, talvez eu tivesse crescido igual, mas sem esta convicção secreta de que há sempre algo no mundo que me aparará a queda.
Não sei se isso é fé, destino ou pura ingenuidade. Sei apenas que, nesse dia, a vida decidiu não me magoar, decidiu sorrir para mim — e, desde então, carrego esse sorriso como um escudo invisível.
