trouxe-me uma alegria especial.
O concurso “Escrever no Escuro”, uma iniciativa literária promovida pela associação cultural A Palavra, pelo Município de Oeiras e pelas Bibliotecas de Oeiras, distinguiu o meu conto com o 2.º lugar.
A cerimónia de entrega de prémios e o lançamento da antologia da primeira edição terão lugar no dia 18 de julho de 2026, no Centro Cultural de Barcarena.
É uma enorme satisfação ver este trabalho reconhecido e integrar esta antologia. Cada página escrita começa sempre no escuro, mas, por vezes, encontra a luz de quem a lê. E é por isso que vale a pena continuar a escrever.

Espectro de residente
Quando Karl chegou a Portugal, trazia duas malas, um dicionário de bolso e uma confiança ingénua na palavra “simples”.
Karl era alemão. Isso explica muita coisa, mas não o suficiente.
Veio para Lisboa trabalhar remotamente, convencido de que resolver papéis seria uma questão de organização, três formulários e uma senha. Na sua cabeça, o Estado era uma máquina: introduz-se o pedido, obtém-se o resultado. Havia uma certa poesia nisso, pensava ele, uma coreografia invisível entre cidadão e sistema. No terceiro dia, percebeu que em Portugal a poesia existia, mas era de outro género. Mais próxima do surrealismo. Precisava de um número de contribuinte. Algo básico. Fundamental. Um primeiro passo.
— É rápido — disseram-lhe.
Karl acreditou.
Na repartição, tirou uma senha. O número era A138. O painel mostrava A12. Sentou-se. Observou. Um senhor idoso dormia com a serenidade de quem já desistira de lutar contra o tempo. Uma mulher discutia com o ar, como se estivesse a ensaiar um argumento invisível. Um bebé chorava com convicção política.
Duas horas depois, Karl ainda acreditava no sistema.
Quatro horas depois, começou a acreditar em forças superiores.
Quando finalmente foi chamado, aproximou-se com a postura de quem vai selar um destino.
— Bom dia — disse, num português cauteloso.
A funcionária olhou-o como quem avalia uma peça fora de catálogo — Documento de identificação.
Karl entregou o passaporte.
— Comprovativo de morada.
Karl sorriu. Tinha preparado tudo. Entregou o contrato de arrendamento. A funcionária folheou o papel com desconfiança.
— Isto não serve.
Karl piscou os olhos, como se pudesse ajustar a realidade.
— Não serve?
— Precisa de um comprovativo.
— Mas… isto é o contrato da casa.
— Pois, mas não comprova.
Karl sentiu um ligeiro deslocamento interior. Algo entre a lógica e o abismo.
— O que comprova, então?
A funcionária encolheu os ombros, com a elegância de quem domina o inexplicável.
— Uma fatura.
— Mas eu acabei de chegar.
— Então não tem fatura.
— Não.
— Então não pode comprovar.
Karl saiu da repartição com uma sensação nova. Não era frustração. Era mais profundo. Era como se tivesse sido gentilmente informado de que a realidade não funcionava ali da mesma maneira.
Nos dias seguintes, Karl mergulhou num percurso iniciático. Descobriu que precisava de um representante fiscal para obter o número de contribuinte. Para ter um representante fiscal, precisava de… um número de contribuinte. Riu-se pela primeira vez. Um riso curto, nervoso, quase respeitoso. Havia uma beleza circular naquele raciocínio. Uma espécie de filosofia prática: para existir, é preciso já existir. Num café, explicou a situação ao empregado, que ouvia enquanto limpava o balcão com movimentos lentos, como quem já viu tudo.
— Isso resolve-se — disse o homem. — Conheço um primo que trata disso.
Karl não conhecia o primo, mas começou a perceber que em Portugal o sistema oficial coexistia com outro, mais eficiente, mais humano, mais… primo.
Aceitou.
Dois dias depois, tinha o número de contribuinte. Não sabia exatamente como.
Não perguntou. Aprendeu, então, a primeira regra não escrita: em Portugal, a solução raramente está no sítio onde se espera, mas aparece sempre onde se conversa.
Com o tempo, Karl foi acumulando pequenas vitórias administrativas. Abriu conta no banco, registou-se no centro de saúde, conseguiu até marcar uma reunião numa entidade pública sem sofrer colapso emocional.
Mas o verdadeiro teste chegou com a carta.
Era branca, oficial, intimidante. Informava que faltava um documento no processo do número de contribuinte. Sem esse documento, o número poderia ser anulado.
Dirigiu-se novamente à repartição.
Tirou uma senha. Sentou-se. Esperou.
Desta vez, o painel parecia avançar mais devagar. Ou talvez fosse ele que já não tinha pressa. Observou o mesmo teatro humano: o sono resignado, a indignação criativa, a infância em protesto.
Quando foi chamado, apresentou a carta.
A funcionária leu.
— Falta o comprovativo de morada.
Karl sorriu. Um sorriso calmo, quase terno.
— Já trouxe.
Entregou uma fatura de eletricidade.
A funcionária analisou.
— Está em nome de outra pessoa.
— O senhorio.
— Então não serve.
Karl respirou fundo. Mas não se irritou. Havia, naquele momento, uma clareza nova.
— O que posso fazer?
A funcionária olhou-o com um leve cansaço, mas também com algo próximo de respeito.
— Tem de pedir uma declaração.
— A quem?
— Ao senhorio.
Karl assentiu. Saiu. Não discutiu. Não questionou. Pediu a declaração. Voltou.
Esperou. Entregou. Desta vez, serviu.
Quando saiu da repartição, com o processo finalmente regularizado, Karl não sentiu triunfo. Sentiu transformação.
Portugal tinha-lhe ensinado algo que a Alemanha nunca lhe mostrara: que a ordem é uma ilusão confortável, mas a adaptação é uma arte.
Meses depois, um amigo alemão visitou-o.
— E então? — perguntou. — É fácil tratar das coisas aqui?
Karl pensou por um momento.
Olhou a cidade, os elétricos, as pessoas que atravessavam a rua fora da passadeira com uma confiança quase metafísica.
Sorriu.
— É simples — disse. — Só não é direto.
O amigo franziu a testa.
— Não percebo.
Karl pousou a mão no ombro dele, com a serenidade de quem já atravessou um labirinto.
— Vais perceber.
E, pela primeira vez desde que chegara, Karl não tinha pressa nenhuma de explicar. Tirou do bolso a carteira. Lá dentro, alinhados com um rigor quase irónico, estavam os seus novos documentos: número de contribuinte, cartão do banco, comprovativos, declarações. Pequenas vitórias impressas em papel oficial.
Faltava apenas uma coisa.
— Ainda não tenho residência fiscal definitiva — disse, com naturalidade.
— Porquê?
Karl encolheu ligeiramente os ombros.
— Falta um documento.
O amigo riu-se.
— Qual?
Karl olhou em volta, como se a cidade pudesse ouvir.
As pessoas passavam, os cafés enchiam, alguém discutia ao telefone com uma intensidade doméstica. Tudo funcionava. Tudo avançava. Tudo, de alguma forma, acontecia.
Depois respondeu:
— Prova de que estou cá.
O amigo franziu o sobrolho.
— Mas tu estás cá.
Karl sorriu, desta vez sem ironia.
— Eu sei.
Fez uma pausa breve, quase solene.
— Eles é que ainda não.


