Desafio vencedor do mês de abril do Clube dos Writers

O Rangido das Distâncias Antigas

1. A memória que ainda tem corpo

Lembro os livros Desastres de Sofia e A trinta diabos, e tal como as protagonistas, eu era endiabrada, levada da breca, por isso não tinha autorização para passar férias longe dos meus pais. Ninguém me segurava. Subia árvores, postes, corria, fugia. As férias grandes limitavam-se a idas à praia e depois a uma quinzena, no máximo, na aldeia dos pais.

Mas não são esses livros o objeto da minha memória de hoje.

A aldeia chama-se Meda de Mouros. A minha casa ficava mesmo em frente ao único café da aldeia. Era mais do que café: era correio, era telefone, era mercearia improvisada, era ponto de encontro. Tudo passava por ali, dando a impressão de que a vida decidira caber num só balcão de madeira gasta. O sino da porta anunciava chegadas com um som metálico e breve, quase tímido. Lá dentro, o cheiro misturava café quente, tabaco e vinho. Os homens encostavam-se ao balcão como quem encosta o tempo, devagar, a falar das colheitas, das notícias que vinham de longe em voz emprestada. As mulheres entravam mais depressa, pediam o essencial, trocavam duas palavras e saíam como se o mundo lá fora estivesse sempre à espera. Eu via tudo do pequeno varandim da entrada, com os cotovelos pousados no parapeito, a rua a estender-se como um palco repetido. Às vezes, alguém chamava pelo meu nome e eu atravessava a rua a correr, sentindo que aquele pequeno centro da aldeia era, afinal, o coração de tudo. E vivia ali, entre o varandim e o som das vozes, num vaivém constante onde o mundo inteiro parecia caber. Sempre que alguém entrava ou saía, tinha de cumprimentar. Era regra de boa educação, nem que já o tivesse feito recentemente.

A rua era comprida e quieta. Todos sabiam que lá havia criançada a brincar, e os poucos carros ou motoretas passavam com todo o cuidado. A aldeia não tinha saída. Acabava no rio, onde a água fresca se fazia ouvir pelo caneiro, cheirava a vida e a roupa lavada. Eu, à porta de casa, esperava encostada ao muro, a sentir o pó fino, a língua a provar o sal da pele. Ao longe, ouvia-se o ranger das rodas de madeira e o bater compassado dos cascos. Era o som que me puxava para a frente, à maneira de alguém a gritar por mim.

Quando a carroça surgia, levantava-se uma poeira leve, dourada. O burro vinha de cabeça baixa, paciente, e o homem erguia o braço para me ver melhor. Eu já corria. Saltava para o bordo de trás com uma agilidade que me parecia natural, num gesto que o corpo parecia conhecer há muito guiado por um caminho antigo. As mãos agarravam a madeira áspera. O cheiro era uma mistura de palha, suor e terra — um perfume rude que me enchia o peito.

«Segura-te bem, rapariga!», diziam uns, sem parar; outros, «Diacho da garota!», com todo o respeito, provavelmente com vontade de blasfemar. Mas, por questões de família, eu era considerada “uma menina”.

Segurava-me. E, nesse instante, o mundo mudava de lugar. A rua deixava de ser chão e passava a ser estrada. O vento batia-me na cara com um gosto a liberdade. As casas deslizavam devagar, tímidas, quase envergonhadas. Eu ria, sem saber porquê, com os olhos a arder de luz. Havia uma música no ranger das rodas, uma cadência que me embalava. Sentia o corpo inteiro acordado, atento, vivo.

Às vezes, eram bois, uma parelha grande, com chocalhos graves que batiam no ar como um coração lento. O som entrava-me pelos ossos. Eu subia na mesma, mais devagar. O carro era mais alto, o mundo parecia mais amplo. Alguns lavradores já abrandavam quando me viam no cimo, junto à casa dos avós paternos ou no fundo, perto da casa da minha madrinha. Nessa casa repleta de hortênsias, o grande tanque de rega, de água sempre límpida e quase imóvel, ficava ao lado do tanque da roupa, mais pequeno, num silêncio atento ao passar do tempo. Sobre ele, um caramanchão de videiras abria-se em braços verdes, formando um teto vivo que filtrava a luz em manchas douradas. O sol entrava aos bocados, desenhando tremores na superfície da água. Ali, tudo parecia mais lento, mais fresco, com o mundo inteiro em surdina. Eu aproximava-me devagar, atraída por aquela transparência que convidava ao toque. Muitas vezes, sem pensar, atirava-me para dentro, ainda vestida, num impulso que não sabia explicar. O choque da água fria subia-me pelo corpo como um espanto feliz, e o riso vinha antes do medo. Às vezes, havia repreensão, outras vezes, apenas um suspiro resignado, como quem já conhecia o meu destino molhado. No móvel da entrada, a minha mãe deixava sempre uma muda de roupa para esta «cabrita» que não parava quieta. E eu saía dali leve, com gotas a escorrer-me pelo cabelo, com o caramanchão a deixar-me uma pequena memória de frescura e desobediência.

Por norma, para ir ao rio, ia-se a pé ou, mais tarde, no trator do tio Augusto. No percurso, lambuzávamo-nos com amoras, nódoas difíceis, mas isso não me incomodava, até porque adorava o anúncio do detergente: «Quero lá saber, a minha mamã lava a roupa com Juá».

A mocidade da terra, onde quase todos eram familiares ou primos de primos, dirigia-se ao Alva entre risos, cantorias e farnel. As minhas primas mais chegadas falavam da ida à feira de carro comigo e com os meus pais. Falavam do carro como algo fascinante, das portas que fechavam com um clique limpo, de bancos macios. Eu não entendia. O carro, para mim, não despertava interesse; aliás, era símbolo de enjoos frequentes. A estrada da Beira, de curva e contracurva, era fatal para o Gregório. Vibravam sempre que o meu pai as convidava: «Vamos dar uma volta de carro?», e os olhos ficavam brilhantes. Eu encolhia os ombros. Olhava para a rua, para o trilho de pó, para o eco dos cascos que ainda vibrava no ar. Não queria trocar o mundo aberto por uma coisa que não respirava.

Parte inferior do formulário

2. O que só compreendi depois

Volto à mesma rua, agora de fora para dentro. A memória ainda tem pó, som e calor, mas ganhou distância. Vejo a criança que fui, pendurada numa carroça, com uma alegria quase teimosa. Na altura, não compreendia a surpresa das minhas primas, nem o brilho com que falavam dos carros. Achava estranho preferirem uma caixa silenciosa a um corpo em movimento.

Hoje, percebo que cada uma de nós defendia o que lhe faltava.

Eu vivia cercada por aquela rua sem saída, por um tempo que parecia circular, por um horizonte que terminava no rio. A carroça era a minha fuga. Não pela velocidade, mas pela sensação de atravessar. O vento na cara, o cheiro da palha, o ranger das rodas — tudo me dizia que havia mais mundo do que aquele que eu via todos os dias. A carroça não era atraso. Era passagem.

Elas, pelo contrário, estavam fartas da rotina do campo, do peso dos dias iguais, do ritmo lento que se colava à pele. O carro prometia outra coisa: distância rápida, portas que se fecham, um dentro protegido, um fora que corre. Para elas, o carro era promessa. Para mim, era limite.

Na altura, não tinha palavras para isto. Tinha apenas o corpo. Um corpo que escolhia o vento e recusava o vidro. Um corpo que preferia o barulho irregular ao silêncio domesticado. Um corpo que não queria chegar depressa; queria sentir.

«Segura-te bem, rapariga!», dizia o homem. E eu segurava-me, mas, na verdade, era o momento que me segurava a mim.

Hoje, percebo que aquele gesto — subir sem pedir, agarrar-me às carroças, confiar no equilíbrio — foi um ensaio de vida. Um treino discreto para escolhas futuras. A coragem não apareceu de repente, como um relâmpago. Foi-se instalando devagar, com o ritmo das rodas, com o hábito de avançar apesar do risco pequeno.

Também compreendo melhor o meu fascínio pela novidade. Não nasceu de um capricho. Nasceu de uma rua direita que acabava no rio. Quando o mundo nos parece curto, inventamos extensão. Quando o horizonte é estreito, o desejo alarga-se. Viajar, hoje, não é fugir do que sou. É continuar aquele movimento antigo de atravessar.

E há outra coisa que só agora entendo: o valor do contraste. Sem as minhas primas, talvez eu não tivesse percebido a singularidade do meu encantamento. O espanto delas funcionava como um espelho invertido.

Ao não entenderem o meu fascínio, obrigavam-me a senti-lo com mais nitidez. E eu, ao não entender o delas, defendia o meu com mais convicção. Crescíamos no atrito suave das diferenças.

Se volto à cena, vejo mais do que via. Vejo o homem cansado, o animal paciente, o peso do dia a cair sobre a madeira. Vejo também a leveza improvável de uma criança que transforma aquilo em festa. A realidade era dura, sim. Mas havia uma brecha por onde entrava a alegria.

Hoje, entendo que a memória não é apenas um lugar onde volto. É uma ferramenta que me lê. Mostra-me padrões, insiste em perguntas, afina decisões. Aquela rua sem saída ensinou-me a procurar saídas. Aquelas carroças ensinaram-me a gostar do caminho.

E, no entanto, guardo uma imagem simples, quase muda. Eu, de mãos agarradas à madeira áspera, o vento a empurrar-me o rosto, e a rua a abrir-se devagar — com uma saída escondida que, afinal, sempre estivera ali.

A aldeia já não tem crianças a correr na rua. As vozes são outras, mais baixas, mais lentas. O café continua lá, mas já não é apenas balcão de encontros e recados. É também lugar de quem resiste ao tempo, de quem se senta para beber café e trocar larachas, agora com o telemóvel pousado ao lado e o wifi a atravessar as conversas. O sino da porta continua a tocar, mas já não abre o mesmo mundo de antes. Lá dentro, fala-se devagar, com palavras que parecem ter aprendido a poupar-se. E eu olho e reconheço o lugar, mas ele já não me reconhece a mim.

Hoje, já não se brinca na rua, não se vive só do campo. Há carros e camiões que passam depressa, a levantar pó e pressa. Vão e vêm ao rio buscar areia, e a paisagem já não é lugar de infância: é apenas passagem de máquinas. Que bom que era viver sem preocupações, sempre a desafiar o destino, com arranhões que não doíam e o ar livre a servir de redoma verdadeira — tão diferente dos dias de hoje, em que tantos vivem protegidos até do vento, como se a vida pudesse ser vivida sem contacto com a pele do mundo.