Emergência Linguística: chamem o 112 da gramática!
Derivados da aderência ( ou o drama de “ir ao encontro a…”)
Há dias em que me apetece criar um serviço de emergência linguística. Um número curto, tipo 112, mas para salvar palavras em perigo. Seria algo como “Língua SOS”, com sirene discreta e prontidão imediata sempre que alguém disser, com ar seguro, que “isso vai ao encontro a”.
Sim, “ao encontro a”. A moda pegou, e agora multiplicam-se os derivados da ignorância: aderências descontroladas, encontros desorientados e um novo espécime que ameaça dominar a fauna verbal — o “derivado de” usado onde devia estar um inocente “devido a”.
Tudo agora é “derivado”. Derivado do trânsito, derivado da chuva, derivado da conjuntura, derivado do Mercúrio retrógrado. “Derivado” soa mais técnico, mais importante — parece que, dito assim, o atraso até ganha um ar científico. Já “devido” é modesto, é só português; e quem é que quer ser modesto numa frase?
Depois há a eterna confusão entre ir ao encontro de e ir de encontro a. O primeiro aproxima, o segundo choca. Mas, ao ritmo a que vamos, já nem sei se o português vai ao encontro do bom senso ou se vai de encontro à parede.
E quanto à aderência, a história é outra colagem. Houve tempo em que aderíamos a ideias, campanhas, causas. Agora, o que se vê são “aderências” às mais variadas coisas: programas, metodologias, produtos de limpeza. “Aderência” soa a coisa pegajosa — e talvez seja isso mesmo que nos está a acontecer: colamo-nos às palavras erradas e, quanto mais tentamos corrigir, mais grudamos.
O problema é que o erro, de tanto repetir-se, ganha estatuto de tendência. E a tendência, quando aparece num PowerPoint ou num reels, já ninguém ousa contrariar. “Toda a gente diz assim” — e pronto, sentença dada, gramática enterrada com honras de “uso corrente”.
Nessas alturas, respiro fundo, conto até dez e penso que a língua é viva, sim, mas há vivos que não sabem o que dizem.
Portanto, da próxima vez que alguém disser que “a reunião foi cancelada derivado da chuva e vai ao encontro a novas soluções”, talvez possamos responder com um sorriso doce, olhar paciente e uma pontinha de malícia:
— Pois claro. E que a aderência seja total.


