Este mês lembra a bondade e a partilha. As palavras repetem-se nas montras, nos anúncios, nos discursos públicos, como se bastasse nomeá-las para que se tornassem reais. No entanto, ao mesmo tempo, multiplicam-se os casos de desvios de fundos, de crueldade, de corrupção, de crimes e de fraudes. A generosidade parece cada vez mais um adorno sazonal, usado por conveniência, esquecido logo depois.
Já não anda meio mundo a enganar meio mundo, como dizia o meu pai; a percentagem, hoje, parece bem superior. Há um cansaço moral que se infiltra nas pequenas notícias do dia, uma erosão silenciosa da confiança, como se o chão comum se estivesse a desfazer sob os nossos pés. Parecem ser cada vez menos os justos, os piedosos, os verdadeiramente cristãos — não os que se anunciam, mas os que vivem a fé como gesto quotidiano, discreto, sem necessidade de aplauso.
O que mais me entristece não é apenas a existência do mal, sempre antigo como o mundo, mas a sua banalização. A forma como se normaliza a esperteza, o proveito próprio, o desvio ético travestido de inteligência. Há uma pedagogia silenciosa a ensinar que vencer é passar à frente, que ganhar é contornar, que sobreviver justifica quase tudo.
Sinto-me entristecida num século que, pela educação cada vez mais elevada, deveria mostrar outras mentalidades. Esperava-se mais pensamento crítico, mais empatia, mais responsabilidade colectiva. Em vez disso, cresce em mim a sensação de que se anda a regredir, não por falta de conhecimento, mas por falta de consciência. Como se soubéssemos mais, mas cuidássemos menos.
Talvez por isso este mês me pese de maneira particular. Porque Dezembro insiste na ideia de luz, e eu vejo demasiadas sombras a serem varridas para debaixo do tapete. Porque fala de partilha, e a desigualdade grita. Porque evoca o nascimento de uma esperança humilde, e o mundo responde com ruído, pressa e indiferença.
Ainda assim, recuso-me a desistir completamente do gesto pequeno. Da bondade que não faz manchetes. Da honestidade que não rende dividendos. Da fé que não precisa de palco. Talvez sejam poucos, talvez passem despercebidos, mas continuo a acreditar que é neles — nos que caminham em bicos de pés — que o mundo, apesar de tudo, ainda se sustém.
Que este mês nos lembre, mesmo na escuridão, da importância de pequenos gestos, de ternura e de cuidado. Que possamos oferecer um pouco de luz onde houver sombra, e ouvir o silêncio com atenção. E, acima de tudo, que estas festas nos tragam momentos de afeto, encontros sinceros e alguma paz interior. Boas festas, com esperança e serenidade.


