Mês a mês

Decidi criar este espaço dentro do blogue para escrever, todos os meses, um pouco do que me habita. Histórias, pensamentos, impressões. Um exercício de partilha e de companhia, porque acredito que as palavras podem aproximar-nos.

julho 2026

Desafio vencedor do mês de abril do Clube dos Writers

O Rangido das Distâncias Antigas

1. A memória que ainda tem corpo

Lembro os livros Desastres de Sofia e A trinta diabos, e tal como as protagonistas, eu era endiabrada, levada da breca, por isso não tinha autorização para passar férias longe dos meus pais. Ninguém me segurava. Subia árvores, postes, corria, fugia. As férias grandes limitavam-se a idas à praia e depois a uma quinzena, no máximo, na aldeia dos pais.

Mas não são esses livros o objeto da minha memória de hoje.

A aldeia chama-se Meda de Mouros. A minha casa ficava mesmo em frente ao único café da aldeia. Era mais do que café: era correio, era telefone, era mercearia improvisada, era ponto de encontro. Tudo passava por ali, dando a impressão de que a vida decidira caber num só balcão de madeira gasta. O sino da porta anunciava chegadas com um som metálico e breve, quase tímido. Lá dentro, o cheiro misturava café quente, tabaco e vinho. Os homens encostavam-se ao balcão como quem encosta o tempo, devagar, a falar das colheitas, das notícias que vinham de longe em voz emprestada. As mulheres entravam mais depressa, pediam o essencial, trocavam duas palavras e saíam como se o mundo lá fora estivesse sempre à espera. Eu via tudo do pequeno varandim da entrada, com os cotovelos pousados no parapeito, a rua a estender-se como um palco repetido. Às vezes, alguém chamava pelo meu nome e eu atravessava a rua a correr, sentindo que aquele pequeno centro da aldeia era, afinal, o coração de tudo. E vivia ali, entre o varandim e o som das vozes, num vaivém constante onde o mundo inteiro parecia caber. Sempre que alguém entrava ou saía, tinha de cumprimentar. Era regra de boa educação, nem que já o tivesse feito recentemente.

A rua era comprida e quieta. Todos sabiam que lá havia criançada a brincar, e os poucos carros ou motoretas passavam com todo o cuidado. A aldeia não tinha saída. Acabava no rio, onde a água fresca se fazia ouvir pelo caneiro, cheirava a vida e a roupa lavada. Eu, à porta de casa, esperava encostada ao muro, a sentir o pó fino, a língua a provar o sal da pele. Ao longe, ouvia-se o ranger das rodas de madeira e o bater compassado dos cascos. Era o som que me puxava para a frente, à maneira de alguém a gritar por mim.

Quando a carroça surgia, levantava-se uma poeira leve, dourada. O burro vinha de cabeça baixa, paciente, e o homem erguia o braço para me ver melhor. Eu já corria. Saltava para o bordo de trás com uma agilidade que me parecia natural, num gesto que o corpo parecia conhecer há muito guiado por um caminho antigo. As mãos agarravam a madeira áspera. O cheiro era uma mistura de palha, suor e terra — um perfume rude que me enchia o peito.

«Segura-te bem, rapariga!», diziam uns, sem parar; outros, «Diacho da garota!», com todo o respeito, provavelmente com vontade de blasfemar. Mas, por questões de família, eu era considerada “uma menina”.

Segurava-me. E, nesse instante, o mundo mudava de lugar. A rua deixava de ser chão e passava a ser estrada. O vento batia-me na cara com um gosto a liberdade. As casas deslizavam devagar, tímidas, quase envergonhadas. Eu ria, sem saber porquê, com os olhos a arder de luz. Havia uma música no ranger das rodas, uma cadência que me embalava. Sentia o corpo inteiro acordado, atento, vivo.

Às vezes, eram bois, uma parelha grande, com chocalhos graves que batiam no ar como um coração lento. O som entrava-me pelos ossos. Eu subia na mesma, mais devagar. O carro era mais alto, o mundo parecia mais amplo. Alguns lavradores já abrandavam quando me viam no cimo, junto à casa dos avós paternos ou no fundo, perto da casa da minha madrinha. Nessa casa repleta de hortênsias, o grande tanque de rega, de água sempre límpida e quase imóvel, ficava ao lado do tanque da roupa, mais pequeno, num silêncio atento ao passar do tempo. Sobre ele, um caramanchão de videiras abria-se em braços verdes, formando um teto vivo que filtrava a luz em manchas douradas. O sol entrava aos bocados, desenhando tremores na superfície da água. Ali, tudo parecia mais lento, mais fresco, com o mundo inteiro em surdina. Eu aproximava-me devagar, atraída por aquela transparência que convidava ao toque. Muitas vezes, sem pensar, atirava-me para dentro, ainda vestida, num impulso que não sabia explicar. O choque da água fria subia-me pelo corpo como um espanto feliz, e o riso vinha antes do medo. Às vezes, havia repreensão, outras vezes, apenas um suspiro resignado, como quem já conhecia o meu destino molhado. No móvel da entrada, a minha mãe deixava sempre uma muda de roupa para esta «cabrita» que não parava quieta. E eu saía dali leve, com gotas a escorrer-me pelo cabelo, com o caramanchão a deixar-me uma pequena memória de frescura e desobediência.

Por norma, para ir ao rio, ia-se a pé ou, mais tarde, no trator do tio Augusto. No percurso, lambuzávamo-nos com amoras, nódoas difíceis, mas isso não me incomodava, até porque adorava o anúncio do detergente: «Quero lá saber, a minha mamã lava a roupa com Juá».

A mocidade da terra, onde quase todos eram familiares ou primos de primos, dirigia-se ao Alva entre risos, cantorias e farnel. As minhas primas mais chegadas falavam da ida à feira de carro comigo e com os meus pais. Falavam do carro como algo fascinante, das portas que fechavam com um clique limpo, de bancos macios. Eu não entendia. O carro, para mim, não despertava interesse; aliás, era símbolo de enjoos frequentes. A estrada da Beira, de curva e contracurva, era fatal para o Gregório. Vibravam sempre que o meu pai as convidava: «Vamos dar uma volta de carro?», e os olhos ficavam brilhantes. Eu encolhia os ombros. Olhava para a rua, para o trilho de pó, para o eco dos cascos que ainda vibrava no ar. Não queria trocar o mundo aberto por uma coisa que não respirava.

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2. O que só compreendi depois

Volto à mesma rua, agora de fora para dentro. A memória ainda tem pó, som e calor, mas ganhou distância. Vejo a criança que fui, pendurada numa carroça, com uma alegria quase teimosa. Na altura, não compreendia a surpresa das minhas primas, nem o brilho com que falavam dos carros. Achava estranho preferirem uma caixa silenciosa a um corpo em movimento.

Hoje, percebo que cada uma de nós defendia o que lhe faltava.

Eu vivia cercada por aquela rua sem saída, por um tempo que parecia circular, por um horizonte que terminava no rio. A carroça era a minha fuga. Não pela velocidade, mas pela sensação de atravessar. O vento na cara, o cheiro da palha, o ranger das rodas — tudo me dizia que havia mais mundo do que aquele que eu via todos os dias. A carroça não era atraso. Era passagem.

Elas, pelo contrário, estavam fartas da rotina do campo, do peso dos dias iguais, do ritmo lento que se colava à pele. O carro prometia outra coisa: distância rápida, portas que se fecham, um dentro protegido, um fora que corre. Para elas, o carro era promessa. Para mim, era limite.

Na altura, não tinha palavras para isto. Tinha apenas o corpo. Um corpo que escolhia o vento e recusava o vidro. Um corpo que preferia o barulho irregular ao silêncio domesticado. Um corpo que não queria chegar depressa; queria sentir.

«Segura-te bem, rapariga!», dizia o homem. E eu segurava-me, mas, na verdade, era o momento que me segurava a mim.

Hoje, percebo que aquele gesto — subir sem pedir, agarrar-me às carroças, confiar no equilíbrio — foi um ensaio de vida. Um treino discreto para escolhas futuras. A coragem não apareceu de repente, como um relâmpago. Foi-se instalando devagar, com o ritmo das rodas, com o hábito de avançar apesar do risco pequeno.

Também compreendo melhor o meu fascínio pela novidade. Não nasceu de um capricho. Nasceu de uma rua direita que acabava no rio. Quando o mundo nos parece curto, inventamos extensão. Quando o horizonte é estreito, o desejo alarga-se. Viajar, hoje, não é fugir do que sou. É continuar aquele movimento antigo de atravessar.

E há outra coisa que só agora entendo: o valor do contraste. Sem as minhas primas, talvez eu não tivesse percebido a singularidade do meu encantamento. O espanto delas funcionava como um espelho invertido.

Ao não entenderem o meu fascínio, obrigavam-me a senti-lo com mais nitidez. E eu, ao não entender o delas, defendia o meu com mais convicção. Crescíamos no atrito suave das diferenças.

Se volto à cena, vejo mais do que via. Vejo o homem cansado, o animal paciente, o peso do dia a cair sobre a madeira. Vejo também a leveza improvável de uma criança que transforma aquilo em festa. A realidade era dura, sim. Mas havia uma brecha por onde entrava a alegria.

Hoje, entendo que a memória não é apenas um lugar onde volto. É uma ferramenta que me lê. Mostra-me padrões, insiste em perguntas, afina decisões. Aquela rua sem saída ensinou-me a procurar saídas. Aquelas carroças ensinaram-me a gostar do caminho.

E, no entanto, guardo uma imagem simples, quase muda. Eu, de mãos agarradas à madeira áspera, o vento a empurrar-me o rosto, e a rua a abrir-se devagar — com uma saída escondida que, afinal, sempre estivera ali.

A aldeia já não tem crianças a correr na rua. As vozes são outras, mais baixas, mais lentas. O café continua lá, mas já não é apenas balcão de encontros e recados. É também lugar de quem resiste ao tempo, de quem se senta para beber café e trocar larachas, agora com o telemóvel pousado ao lado e o wifi a atravessar as conversas. O sino da porta continua a tocar, mas já não abre o mesmo mundo de antes. Lá dentro, fala-se devagar, com palavras que parecem ter aprendido a poupar-se. E eu olho e reconheço o lugar, mas ele já não me reconhece a mim.

Hoje, já não se brinca na rua, não se vive só do campo. Há carros e camiões que passam depressa, a levantar pó e pressa. Vão e vêm ao rio buscar areia, e a paisagem já não é lugar de infância: é apenas passagem de máquinas. Que bom que era viver sem preocupações, sempre a desafiar o destino, com arranhões que não doíam e o ar livre a servir de redoma verdadeira — tão diferente dos dias de hoje, em que tantos vivem protegidos até do vento, como se a vida pudesse ser vivida sem contacto com a pele do mundo.

junho 2026

trouxe-me uma alegria especial. 

O concurso “Escrever no Escuro”, uma iniciativa literária promovida pela associação cultural A Palavra, pelo Município de Oeiras e pelas Bibliotecas de Oeiras, distinguiu o meu conto com o 2.º lugar.

A cerimónia de entrega de prémios e o lançamento da antologia da primeira edição terão lugar no dia 18 de julho de 2026, no Centro Cultural de Barcarena.

É uma enorme satisfação ver este trabalho reconhecido e integrar esta antologia. Cada página escrita começa sempre no escuro, mas, por vezes, encontra a luz de quem a lê. E é por isso que vale a pena continuar a escrever.

Espectro de residente

Quando Karl chegou a Portugal, trazia duas malas, um dicionário de bolso e uma confiança ingénua na palavra “simples”.

Karl era alemão. Isso explica muita coisa, mas não o suficiente.

Veio para Lisboa trabalhar remotamente, convencido de que resolver papéis seria uma questão de organização, três formulários e uma senha. Na sua cabeça, o Estado era uma máquina: introduz-se o pedido, obtém-se o resultado. Havia uma certa poesia nisso, pensava ele, uma coreografia invisível entre cidadão e sistema. No terceiro dia, percebeu que em Portugal a poesia existia, mas era de outro género. Mais próxima do surrealismo. Precisava de um número de contribuinte. Algo básico. Fundamental. Um primeiro passo.

— É rápido — disseram-lhe.

Karl acreditou.

Na repartição, tirou uma senha. O número era A138. O painel mostrava A12. Sentou-se. Observou. Um senhor idoso dormia com a serenidade de quem já desistira de lutar contra o tempo. Uma mulher discutia com o ar, como se estivesse a ensaiar um argumento invisível. Um bebé chorava com convicção política.

Duas horas depois, Karl ainda acreditava no sistema.

Quatro horas depois, começou a acreditar em forças superiores.

Quando finalmente foi chamado, aproximou-se com a postura de quem vai selar um destino.

— Bom dia — disse, num português cauteloso.

A funcionária olhou-o como quem avalia uma peça fora de catálogo — Documento de identificação.

Karl entregou o passaporte.

— Comprovativo de morada.

Karl sorriu. Tinha preparado tudo. Entregou o contrato de arrendamento. A funcionária folheou o papel com desconfiança.

— Isto não serve.

Karl piscou os olhos, como se pudesse ajustar a realidade.

— Não serve?

— Precisa de um comprovativo.

— Mas… isto é o contrato da casa.

— Pois, mas não comprova.

Karl sentiu um ligeiro deslocamento interior. Algo entre a lógica e o abismo.

— O que comprova, então?

A funcionária encolheu os ombros, com a elegância de quem domina o inexplicável.

— Uma fatura.

— Mas eu acabei de chegar.

— Então não tem fatura.

— Não.

— Então não pode comprovar.

Karl saiu da repartição com uma sensação nova. Não era frustração. Era mais profundo. Era como se tivesse sido gentilmente informado de que a realidade não funcionava ali da mesma maneira.

Nos dias seguintes, Karl mergulhou num percurso iniciático. Descobriu que precisava de um representante fiscal para obter o número de contribuinte. Para ter um representante fiscal, precisava de… um número de contribuinte. Riu-se pela primeira vez. Um riso curto, nervoso, quase respeitoso. Havia uma beleza circular naquele raciocínio. Uma espécie de filosofia prática: para existir, é preciso já existir. Num café, explicou a situação ao empregado, que ouvia enquanto limpava o balcão com movimentos lentos, como quem já viu tudo.

— Isso resolve-se — disse o homem. — Conheço um primo que trata disso.

Karl não conhecia o primo, mas começou a perceber que em Portugal o sistema oficial coexistia com outro, mais eficiente, mais humano, mais… primo.

Aceitou.

Dois dias depois, tinha o número de contribuinte. Não sabia exatamente como.

Não perguntou. Aprendeu, então, a primeira regra não escrita: em Portugal, a solução raramente está no sítio onde se espera, mas aparece sempre onde se conversa.

Com o tempo, Karl foi acumulando pequenas vitórias administrativas. Abriu conta no banco, registou-se no centro de saúde, conseguiu até marcar uma reunião numa entidade pública sem sofrer colapso emocional.

Mas o verdadeiro teste chegou com a carta.

Era branca, oficial, intimidante. Informava que faltava um documento no processo do número de contribuinte. Sem esse documento, o número poderia ser anulado.

Dirigiu-se novamente à repartição.

Tirou uma senha. Sentou-se. Esperou.

Desta vez, o painel parecia avançar mais devagar. Ou talvez fosse ele que já não tinha pressa. Observou o mesmo teatro humano: o sono resignado, a indignação criativa, a infância em protesto.

Quando foi chamado, apresentou a carta.

A funcionária leu.

— Falta o comprovativo de morada.

Karl sorriu. Um sorriso calmo, quase terno.

— Já trouxe.

Entregou uma fatura de eletricidade.

A funcionária analisou.

— Está em nome de outra pessoa.

— O senhorio.

— Então não serve.

Karl respirou fundo. Mas não se irritou. Havia, naquele momento, uma clareza nova.

— O que posso fazer?

A funcionária olhou-o com um leve cansaço, mas também com algo próximo de respeito.

— Tem de pedir uma declaração.

— A quem?

— Ao senhorio.

Karl assentiu. Saiu. Não discutiu. Não questionou. Pediu a declaração. Voltou.

Esperou. Entregou. Desta vez, serviu.

Quando saiu da repartição, com o processo finalmente regularizado, Karl não sentiu triunfo. Sentiu transformação.

Portugal tinha-lhe ensinado algo que a Alemanha nunca lhe mostrara: que a ordem é uma ilusão confortável, mas a adaptação é uma arte.

Meses depois, um amigo alemão visitou-o.

— E então? — perguntou. — É fácil tratar das coisas aqui?

Karl pensou por um momento.

Olhou a cidade, os elétricos, as pessoas que atravessavam a rua fora da passadeira com uma confiança quase metafísica.

Sorriu.

— É simples — disse. — Só não é direto.

O amigo franziu a testa.

— Não percebo.

Karl pousou a mão no ombro dele, com a serenidade de quem já atravessou um labirinto.

— Vais perceber.

E, pela primeira vez desde que chegara, Karl não tinha pressa nenhuma de explicar. Tirou do bolso a carteira. Lá dentro, alinhados com um rigor quase irónico, estavam os seus novos documentos: número de contribuinte, cartão do banco, comprovativos, declarações. Pequenas vitórias impressas em papel oficial.

Faltava apenas uma coisa.

— Ainda não tenho residência fiscal definitiva — disse, com naturalidade.

— Porquê?

Karl encolheu ligeiramente os ombros.

— Falta um documento.

O amigo riu-se.

— Qual?

Karl olhou em volta, como se a cidade pudesse ouvir.

As pessoas passavam, os cafés enchiam, alguém discutia ao telefone com uma intensidade doméstica. Tudo funcionava. Tudo avançava. Tudo, de alguma forma, acontecia.

Depois respondeu:

— Prova de que estou cá.

O amigo franziu o sobrolho.

— Mas tu estás cá.

Karl sorriu, desta vez sem ironia.

— Eu sei.

Fez uma pausa breve, quase solene.

— Eles é que ainda não.

 

maio 2026

O conto que se segue foi premiado pela Casa do Educador, um reconhecimento que muito me honra e que agora partilho convosco.

Saída fatídica

Bernardo ia pela primeira vez a uma discoteca. O que mais o intrigava naquele lugar não eram as luzes nem a música, mas os cavalos. A discoteca A2 ficava junto a umas cavalariças e, segundo lhe tinham contado, era possível ver os animais nas pastagens mesmo durante a noite.

Apaixonado pela natureza e pelos animais, a ideia fascinava-o. Estudante universitário e escuteiro desde criança, raramente saía à noite. Apesar de já ser maior de idade, pediu autorização à mãe para ir com um amigo que frequentava o espaço e solicitou também o carro emprestado.

Bernardete hesitou antes de responder.

‒ Não demores a voltar. Sabes que não descanso enquanto não chegas. E presta atenção aos outros na estrada. Ah, e cuidado com a bebida. Tu não estás habituado.

Bernardo sorriu.

‒ Já sou crescido, mãe. O teu boguinhas vai voltar em perfeito estado.

‒ Quero o carro intacto, mas prefiro que sejas tu a chegar são e salvo.

Bernardete tivera o filho tarde e criara-o praticamente sozinha. O pai desaparecera pouco depois do nascimento. Desde então, a vida dela dividia-se entre a loja e o rapaz. Era protetora ao ponto de lhe vigiar cada passo.

Talvez por isso Bernardo se sentisse radiante naquela noite. Era a primeira vez que saía sem supervisores, sem regras, sem horários impostos. Vestiu um polo branco, calças de sarja bege e sapatilhas. Observou-se ao espelho, passou perfume e despediu-se.

Assim que entrou no carro abriu as janelas e mudou a estação da rádio. O ar fresco da noite e a música deram-lhe uma sensação de liberdade inesperada. Conduzia com prudência, mas desfrutava cada quilómetro.

Combinara encontrar-se com o amigo na discoteca K7, ponto intermédio entre as suas casas. Um morava em Paio Pires, o outro em Almada.

Quando estacionou, reconheceu o carro do Jorge. Antes de o avisar, permaneceu alguns minutos dentro do veículo a observar o movimento. Raparigas passavam em grupos animados. Não era apenas o ambiente que o atraía, mas também aquele desfile improvisado de juventude e confiança.

Uma delas prendeu-lhe a atenção.

Ruiva, sardenta, com um ar estrangeiro. Passou perto do carro e deixou no ar um perfume leve que o deixou momentaneamente suspenso.

‒ Uau. Parece que alguém ficou enfeitiçado.

Bernardo sobressaltou-se. Jorge aproximara-se sem que ele desse conta.

‒ Aquela é de outro nível ‒ confessou.

Jorge riu-se.

‒ Nem penses nisso. Aquela beleza já tem dono.

Apontou discretamente para a porta da discoteca, onde um homem enorme observava o movimento.

‒ O namorado?

‒ Exato.

Bernardo avaliou-o à distância.

‒ Credo. Parecem a Bela e o Monstro.

‒ E olha que o Monstro não tem sentido de humor.

Entraram.

O interior da discoteca não era particularmente elegante, mas pulsava de energia. A música vibrava no peito, as luzes cortavam a penumbra e o ar estava pesado. Bernardo estranhou o volume, pouco habituado àquele ambiente, mas aos poucos deixou-se envolver.

Encostaram-se ao bar.

Num dos ecrãs gigantes passavam provas de hipismo. No outro, desfiles de moda. As funcionárias usavam bodies justos que acentuavam as curvas. Os garçons circulavam de tronco nu, a pele brilhante sob as luzes.

‒ Aqui lavam-se os olhos ‒ comentou Bernardo.

‒ E muito dinheiro ‒ respondeu Jorge.

Conversaram algum tempo, entre goles e observações gritadas por cima da música.

Pouco depois, Bernardo inclinou-se para o ouvido do amigo.

‒ Vou lá fora respirar um pouco. E ver os cavalos.

Saiu.

O ar da noite soube-lhe a liberdade. A música tornou-se um eco distante. Caminhou alguns metros até vislumbrar as cavalariças.

Nesse momento cruzou-se novamente com a ruiva. Olhou-a por um segundo a mais do que devia.

Quando se virou, encontrou o brutamontes diante de si.

O homem apontou-lhe dois dedos em forma de pistola e sorriu de forma fria.

Bernardo engoliu em seco e desviou o olhar. Em vez de seguir para as estrebarias, mudou de direção e fingiu ir para o carro.

Enquanto caminhava, reparou num movimento estranho.

Um homem falava ao telemóvel perto de uma porta lateral da discoteca. Entrou rapidamente e saiu instantes depois com um volume pesado nos braços. Ao mesmo tempo, um carro aproximou-se pelas traseiras, com os faróis apagados.

Algo estava a acontecer.

Bernardo aproximou-se discretamente, escondendo-se entre carros estacionados. As roupas claras não ajudavam, mas a curiosidade falou mais alto.

Dois homens trocaram um saco volumoso. Conversaram pouco. Movimentos rápidos, olhares vigilantes.

Não percebeu exatamente o que era, mas parecia uma transação ilegal. Talvez drogas. Talvez substâncias para dopar cavalos. O pensamento atravessou-lhe a mente sem grande lógica.

Sentiu as pernas tremerem.

Ainda assim tirou o telemóvel e começou a filmar.

A distância e a escuridão tornavam as imagens pouco nítidas, mas era melhor do que nada.

Terminou o vídeo e enviou-o à mãe quase por impulso. Talvez como prova, talvez como instinto de proteção.

Depois escreveu rapidamente ao Jorge:

Vou-me embora.

Guardou o telemóvel e caminhou para o carro.

Dois homens surgiram de repente.

Um empurrou-o contra a porta.

O outro arrancou-lhe o telefone das mãos e atirou-o ao chão. O aparelho partiu-se em dois.

‒ Estás com sorte ‒ murmurou um deles.

‒ Foi só o telefone. Podias ser tu.

Bernardo não respondeu. Apenas acenou e afastou-se.

Entrou no carro com as mãos a tremer.

Ligou o motor e conduziu em direção a casa. O coração ainda batia descontrolado. A sua primeira saída noturna estava longe de ser aquilo que imaginara.

Pensou na mãe.

Ela devia ter recebido o vídeo. Explicar-lhe-ia tudo quando chegasse.

Estacionou na praceta atrás do prédio onde vivia e saiu do carro. A escadaria que descia até à porta da rua parecia comprimir-se sob os seus passos, conduzindo-o suavemente ao seu destino.

Um carro aproximou-se lentamente.

Parou à sua frente.

A janela desceu.

Dois clarões rasgaram a noite.

Bernardo caiu antes mesmo de compreender que a sua primeira saída noturna seria também a última.

abril 2026

Na Prateleira da Letra S

Estou há um ano numa biblioteca antiga e empoeirada. O tempo aqui não passa — acumula-se, como pó sobre as memórias.

A minha capa é dura e tem letras desenhadas com uma beleza quase esquecida. O meu título é “O Poder Mágico das Palavras”.

A prateleira onde me encontro está repleta de outros livros. À noite, quando tudo fica em silêncio e só os morcegos rasgam o ar escuro, nós ganhamos vida e contamos histórias uns aos outros.

São serões muito divertidos. Podemos viajar e ver o mundo através das páginas dos compêndios. O pior é o cheiro pesado do papel velho e das páginas amareladas de alguns dos colegas de prateleira.

Estou junto dos autores da letra S. O Principezinho, meu parceiro do lado esquerdo, é o mais requisitado de sempre. Está sempre a sair do lugar. É muito famoso. Dizem que é o terceiro mais lido no mundo.

Um dia, um menino pegou nele e em mim ao mesmo tempo. Sentou-se, muito quieto, e folheou-nos do princípio ao fim. Gostei muito da sensação. Senti-me respirar, página a página, e, por vezes, o dedinho dele até acariciava as minhas linhas.

No fim, quando se cansou, veio colocar-me de novo na prateleira… mas levou O Principezinho. Senti a falta dele. A estante pareceu mais fria nessa noite.

Dormiu fora uma semana. Quando voltou, as letras da minha capa quase tremiam de alegria. Nessa noite, contou-nos as aventuras que vivera nas mãos do menino: parques, jardins, criaturas fantásticas e paisagens deslumbrantes.

Mas confessou algo em voz baixa: teve saudades de nós.

Queria partilhar a sua história e ouvir as nossas. Disse que descobrira que o verdadeiro poder de um livro não está apenas nas palavras, mas naquilo que se acende dentro de quem o lê, na sua capacidade de inspirar e ensinar através da imaginação, levando cada leitor por caminhos improváveis e aventuras inesquecíveis.
Nessa noite, ensinou-nos algo simples e imenso: nós, os livros, somos pura magia.

Nessa noite, compreendi finalmente: nós, os livros, não somos papel.
Somos portas entreabertas à espera de alguém que tenha coragem de entrar.

E, desde então, nunca mais deixei de esperar que alguém escolha a prateleira da letra S — entre Antoine de Saint-Exupéry e José Saramago —… porque há histórias que só existem quando alguém tem coragem de as acordar.

março 2026

Este mês deixo-vos o conto que ganhou o desafio de janeiro do Clube dos Writers

A cor do silêncio

Comecei pela tela em branco como quem encara uma janela fechada. Não era a primeira vez que pintava, mas era a primeira vez depois de tudo. A morte da minha mãe deixara a casa intacta e o meu olhar deslocado. Os móveis permaneciam no mesmo sítio, as chávenas alinhadas na prateleira, o relógio cumpria o seu dever circular, tique… taque…, costurando o silêncio da sala. Só eu é que já não cabia ali da mesma maneira.

A tela respirava diante de mim com um silêncio de hospital. Branco-clínico. Branco-que-não-perdoa. Molhei o pincel em azul-cobalto e hesitei. O primeiro traço é sempre uma espécie de traição: ao que imaginámos, ao que tememos, ao que fomos. Ainda assim, avancei. O azul abriu-se como uma veia mansa sobre o linho, uma fenda líquida no inverno da superfície.

Não pintei o mar. Pintei a ausência dele.

Desde criança que a minha mãe dizia que eu misturava cores como quem mistura memórias. «Nunca deites fora o resto da paleta», aconselhava. «É no resto que mora o inesperado.» Na altura eu sorria, sem perceber que falava da vida. Hoje, ao raspar com a espátula os vestígios de verde-oliva e ocre-queimado, senti que estava a revolver os restos do que fomos. As cores antigas recusavam-se a desaparecer. Transformavam-se.

O começo não foi o dia em que ela partiu. O começo foi este instante em que decidi não pintar o retrato que todos esperavam. Durante semanas, tentei esboçar-lhe o rosto: as rugas delicadas junto aos olhos, o cabelo preso num gesto prático, a boca sempre prestes a dizer o que eu ainda não sabia ouvir. Mas cada tentativa resultava rígida, como se a memória se deixasse fotografar, mas não tocar.

Percebi então que recomeçar não era repetir o contorno conhecido. Era aceitar que o rosto que procuro já não coincide com o que recordo.

Troquei o pincel largo por um mais fino. Acrescentei amarelo-nápoles ao azul. A cor abriu-se num verde-incerto, cor de promessas tímidas. Pintei uma linha oblíqua a atravessar a tela, quase imperceptível, como a cicatriz que me atravessa por dentro. Não representava nada concreto. Era apenas uma direção.

A casa continuava igual, mas eu começava a deslocar-me dentro dela. O ateliê improvisado na antiga sala de jantar cheirava a terebintina e café frio. A luz da tarde entrava pela janela com um pó dourado, pousando na tela como se quisesse participar. Pela primeira vez, não senti que estava a trabalhar sobre uma perda. Senti que estava a abrir uma porta.

O passado não se reorganiza em caixas etiquetadas. Espalha-se como tinta derramada. Podemos limpá-lo apressadamente ou aprender a integrá-lo na composição. Escolhi a segunda hipótese. Com um pano, esfumei parte do azul-inicial. A mancha perdeu intensidade, ganhou profundidade. Onde antes havia um corte brusco, surgiu uma transição quase respirável.

Talvez seja isso um recomeço: não apagar a cor anterior, mas permitir que dialogue com a seguinte.

Lembrei-me de uma tarde em que, adolescente, rasguei uma tela por frustração. A minha mãe não ralhou. Aproximou-se, tocou o rasgão com a ponta dos dedos e disse: «Agora tens duas hipóteses. Deitas fora ou transformas em outra coisa.» Na manhã seguinte, ajudou-me a coser o tecido e pintámos sobre a cicatriz. O quadro ganhou relevo, uma espécie de geografia acidentada que o tornava único.

Olhei para a minha tela atual e compreendi que estava a coser de novo.

A figura começou a insinuar-se sem que eu a planeasse. Não era um retrato, mas uma silhueta em movimento, quase a sair da margem esquerda para o centro. Não tinha rosto definido. Era feita de sobreposições: azul sobre verde, verde sobre amarelo, pequenas pulsações de vermelho escondidas nas bordas. Uma presença em trânsito.

Enquanto pintava, percebi que a minha relação com a memória se alterava. Já não procurava o contorno exato do que recordava. Procurava verdade. E a verdade, como a tinta, precisa de camadas.

O branco-inicial deixara de ser ameaça. Tornara-se espaço de respiração entre as cores. Deixei zonas por preencher, intervalos luminosos onde o olhar pudesse descansar. Aprendi que o silêncio, afinal, é outra forma de cor. A minha mãe nunca teve medo do vazio. «O vazio é o que permite que a forma exista», dizia. Talvez eu estivesse, finalmente, a compreender.

Quando me afastei alguns passos, vi que a tela não contava a história da perda, mas a da deslocação. A figura parecia avançar para uma zona mais clara, como quem atravessa um nevoeiro e descobre que a luz não estava fora, mas misturada na própria bruma.

Não chorei. Também não sorri. Senti apenas uma espécie de alinhamento silencioso, como se as peças internas tivessem encontrado nova disposição. A casa continuava a mesma. O relógio persistia no seu compasso contínuo. Mas eu já não estava no mesmo lugar simbólico. Não era a filha órfã diante de um passado imutável. Era alguém que escolhia a próxima cor.

Lavei os pincéis com cuidado. A água turvou-se num tom indefinido, memória líquida de todas as escolhas feitas naquela tarde. Pensei em começar outra tela no dia seguinte. Não para substituir esta, mas para continuar o diálogo.

Porque cada quadro é um começo disfarçado de continuidade.

Antes de apagar a luz, voltei a olhar a pintura. A silhueta parecia mais nítida na penumbra, como se ganhasse coragem na ausência de claridade excessiva. Talvez os recomeços sejam assim: não explosões visíveis, mas deslocações subtis que, de repente, tornam impossível regressar ao ponto anterior.

Fechei a porta do ateliê com a sensação de que algo em mim tinha sido redesenhado. A tela secaria durante a noite, fixando as camadas, consolidando as transições. Eu também.

E, pela primeira vez desde a perda, o dia seguinte não me pareceu uma repetição. Pareceu uma superfície em branco, não ameaçadora, mas disponível — à espera do primeiro traço que, inevitavelmente, me transformaria outra vez.

fevereiro 2026

Conto de natal para o Clube dos Writers que ficou no top 3

À espera de ser removida

Na ala de internamento, o Natal entrava apenas pelo som. Um tilintar distante, demasiado alegre, atravessava as portas como um erro de cálculo. Não havia árvores nem enfeites naquele piso, apenas o brilho neutro das lâmpadas e o cheiro persistente a desinfetante que anulava qualquer tentativa de memória.

Eu estava sentada junto à janela, de costas para a cama, a contar os carros que via circular na estrada. A cidade continuava, indiferente à suspensão daquele quarto. Em cima da mesa, alguém deixara um pequeno embrulho, mal dobrado, feito do mesmo papel fino dos kits informativos do hospital, rasgado nos cantos. O papel parecia demasiado frágil para conter algo que importasse.

Ninguém mencionara a época natalícia. Ainda assim, impunha-se como uma expectativa muda, como se algo tivesse de acontecer apenas porque o calendário assim o exigia. O relógio marcava as horas com insistência. Ali, o tempo não avançava; acumulava-se.

Havia dias em que eu já não distinguia espera de resistência. Permanecer ali tornara-se um ato sem nome, uma fidelidade sem promessa explícita. Não se tratava de acreditar; tratava-se de não abandonar.

Quando a porta se abriu, não levantei a cabeça. Pelo som dos passos, soube que não era uma visita. A enfermeira entrou com a economia de gestos de sempre, confirmou os dados, ajustou o soro, evitou olhar para a cama. Só então reparou no embrulho.

— Ah — disse, como se tivesse encontrado um erro menor. — Ainda bem que alguém se lembrou.

Pegou nele sem pedir licença e colocou-o na mesa de cabeceira. O papel fez um som breve, seco, ao tocar na madeira. Não era um som festivo, mas administrativo, como tudo ali.

— É Natal — acrescentou, com uma inflexão quase interrogativa. — Mesmo aqui.

Não respondi. A cama permaneceu imóvel. A enfermeira sorriu um sorriso curto, profissional, e tentou compor o cenário com gestos mínimos: alinhou a jarra vazia, puxou a cadeira, abriu a cortina apenas o suficiente para deixar entrar uma luz pálida, sem tempo.

— Às vezes ajuda — disse. — Fingir que é um dia normal, um pouco menos pesado, ou apenas suportável.

Percebeu então que falara de mais. O silêncio que se seguiu não foi incómodo; foi espesso. Fechou o sorriso, anotou algo no tablet e dirigiu-se à saída. Antes de sair, voltou a cabeça:

— Boas Festas.

Não me dignei a responder. A frase ficou suspensa, sem corpo onde pousar. Quando a porta se fechou, o quarto pareceu encolher. O embrulho continuava intacto, como uma promessa sem nome.

A médica entrou pouco depois, sem casaco, o cabelo preso de forma descuidada. Trazia um dossiê fino, desses que não anunciam nada. Cumprimentou-me com um aceno e aproximou-se da cama. Falou baixo, não por respeito, mas por prudência.

— Os últimos exames chegaram agora.

Abriu o dossiê, percorreu as folhas com o dedo, deteve-se num parágrafo sublinhado.

— Não houve alterações significativas.

Esperei.

— O quadro mantém-se.

A frase bastou. O chão desapareceu. Restava a aritmética do tempo.

— Vamos manter o plano — continuou. — Não faz sentido antecipar cenários.

Falava no plural, mas não havia ali nenhuma decisão partilhada. Fechou o dossiê e pousou-o na mesa, ao lado do embrulho. Nenhum dos dois pertencia verdadeiramente àquele espaço.

— Amanhã funcionamos em regime mínimo.

Assenti. Não havia perguntas quando tudo estava suspenso. À saída, ainda disse:

— Se preferir, pode levar o embrulho. Às vezes, estes símbolos criam expectativas desnecessárias.

Fiquei sozinha. A cama permanecia imóvel. O embrulho era leve: um par de meias cinzentas, ainda com etiqueta. Voltei a pousá-lo. Não era o objecto que incomodava, mas a suposição.

Sentei-me junto à janela. Lá fora, o mundo preparava-se para parar. Ali, nada parava. O vento arrastava folhas secas, os carros acumulavam-se na azáfama das últimas lembranças e sucediam-se em fila. As pessoas nem imaginavam o que se passava ali dentro, não se lembravam dos que não têm abrigo nem afeto.

Pensei que talvez o Natal nunca tivesse sido outra coisa senão isto: um intervalo frágil, um lugar improvável onde a vida insiste quando tudo aconselha o contrário.

Apaguei a luz do teto. Ficou apenas a de presença. Foi então que reparei numa pequena grinalda acesa junto à janela. Piscava de forma irregular. Uma lâmpada estava fundida; as outras insistiam.

Não a desliguei.

Antes de sair, aproximei-me da cama. Baixei a voz, como se ele pudesse ouvir:

— Estou aqui, e sei que é difícil. Mas tenho esperança, talvez ainda possas renascer, confio e aguardo um milagre neste dia que celebra o nascimento de Jesus.

O silêncio acompanhou-me até ao corredor. Os cânticos regressaram, baixos, como uma oração que não pede, apenas espera. Alguém ria ao fundo. Eu seguia sozinha, mas já não em deserto.

No quarto, a luz piscava. Não chamava, não explicava. Persistia. Como a pedra diante do sepulcro: ainda no lugar certo, ainda fechada, mas à espera de ser removida.