Hoje é Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. É também o Dia da Língua Portuguesa, essa teia invisível de palavras que nos aproxima, mesmo quando os caminhos são diferentes.

Por isso, deixo-vos hoje uma crónica diferente do habitual. Entre novelos, agulhas e conversas partilhadas, nasceu um retiro onde também se teceram histórias, memórias e laços. É sobre isso que vos escrevo hoje.

Crónica do Retiro de Tricot em Viseu — Dia 1
O jantar interminável no Old Fox

Chegámos a Viseu em momentos diferentes e vindas de vários pontos do país, com a solenidade própria de quem transporta malas cheias de lã, agulhas e intenções muito firmes de “descansar”. O retiro de tricot prometia paz, concentração e pontos perfeitos. Prometia. A realidade, como um novelo mal enrolado, decidiu seguir outro padrão.

Depois da instalação e das inevitáveis comparações de novelos

“que fio trouxeste?”;

“isso é merino?”;

“não, alpaca com mistura e sofrimento financeiro”

fomos jantar ao Old Fox. E foi aí que começou o verdadeiro teste de resistência emocional.

Mandaram-nos para a cave. Descemos confiantes, ainda ingénuas, umas com fome, outras apenas cansadas, todas convencidas de que comeríamos antes da menopausa. Sentámo-nos. Vieram as conversas. Vieram os comentários sobre padrões impossíveis vistos no Instagram, claramente desenhados por alguém que odeia seres humanos. Vieram teorias sobre tensão do fio, agulhas circulares e a eterna ilusão de que “este projecto é rápido”.

A comida, porém, decidiu fazer um retiro espiritual à parte.

A certa altura, já tínhamos atravessado todas as fases emocionais possíveis:

• entusiasmo;

• fome;

• resignação;

• filosofia existencial;

• aceitação da mortalidade.

Houve quem começasse uma manga durante a espera. Houve quem desfizesse três carreiras por nervosismo.
Quando os pratos chegaram, recebemo-los como peregrinas diante de uma aparição mariana. Instalou-se algum silêncio, mas não absoluto. Desenganem-se, isso é impossível.

Apesar de tudo, o jantar cumpriu uma função importante: uniu-nos. Nada fortalece tanto um grupo como sobreviver em conjunto a uma refeição demoradíssima. Quando o jantar terminou, já não éramos apenas um grupo de tricotadeiras. Éramos veteranas de guerra com agulhas circulares.

E ainda só era o primeiro dia.

Crónica do Retiro de Tricot em Viseu — Dia 2

O segundo dia começou como deve começar um retiro de tricot sério: café, alguma rigidez cervical e uma avaliação silenciosa dos estragos feitos nas mãos depois de horas de agulhas no dia anterior.

A manhã trouxe o tão aguardado workshop e, com ele, um novo projecto: um xaile by AndreKnits. Instalou-se de imediato aquele misto de entusiasmo e pânico típico de quem olha para uma amostra perfeita e pensa: “isto claramente não vai ficar assim nas minhas mãos.”

Entre contagens de pontos, marcadores perdidos e frases como “espera, onde começa a repetição?”, o grupo mergulhou no projecto com dedicação absoluta. Algumas avançavam com elegância técnica. Outras especializaram-se sobretudo na arte de desfazer carreiras sem chorar.

Enquanto isso, cá fora, Viseu vivia outro tipo de emoção. De repente começou um alvoroço crescente nas ruas: buzinas, gritos, gente em festa. Após momentos de confusão e alguma especulação dramática, percebemos a razão: o Académico de Viseu Futebol Clube tinha subido à 1.ª divisão.

O contraste era belíssimo: na rua, multidões aos saltos; dentro da sala, pessoas em silêncio absoluto a tentar não falhar uma laçada. Dois tipos muito diferentes de sofrimento emocional.

Ao almoço regressámos ao Old Fox, desta vez estrategicamente instaladas no piso de cima. E eis a surpresa: serviço bastante mais rápido. Não sabemos se foi sorte, ajuda da Carmo, redenção divina ou simples medo de nos ver novamente. A verdade é que a comida chegou antes de alguém considerar tricotar uma camisola inteira durante a espera.

A tarde trouxe uma pausa cultural com visita ao Museu Nacional Grão Vasco. Entre pinturas, salas silenciosas e tentativas discretas de parecer intelectualmente profundas, ficou claro que pessoas habituadas a analisar padrões de renda conseguem também contemplar detalhes renascentistas com enorme seriedade.

Claro que houve fotografia de grupo. E aqui entra o António, o nosso fotógrafo de serviço.

Crónica do Retiro de Tricot em Viseu — Dia 2 (continuação)

Tricot ao fim da tarde e jantar no Palace

Depois da cultura, da euforia futebolística e das emoções intensas provocadas por um xaile novo, chegou um dos momentos mais tranquilos do retiro: umas foram descansar; outras entregaram-se ao tricot com a concentração de neurocirurgiãs cansadas.

Instalámo-nos confortavelmente, cada uma mergulhada no seu projecto, naquele ambiente muito particular em que reina o silêncio… interrompido apenas por frases como:

“alguém viu a minha agulha?”

“isto conta como erro ou como detalhe artístico?”

“se me ouvirem dizer que isto é fácil, é porque estou bêbada”

e a clássica:

“não percebo porque tenho agora mais pontos do que devia.”

As mesas estavam cobertas de novelos de todas as cores possíveis, marcadores, esquemas e pessoas em diferentes estados de concentração. Havia quem avançasse a ritmo impressionante e quem estivesse há quarenta minutos a tentar recuperar uma malha caída sem admitir derrota. A dignidade, em certos momentos do tricot, é um conceito muito frágil.

Ao final do dia seguimos para jantar no Palace, já com níveis de fome mais compatíveis com seres humanos civilizados.

E que diferença de ambiente. O jantar decorreu num clima descontraído, sem dramas logísticos nem longos períodos de contemplação vazia à espera da comida. Havia variedade suficiente para agradar a todos, o que, num grupo de tricotadeiras cansadas e famintas, é praticamente um milagre organizacional.

O pão rústico recebeu elogios quase emocionados. Suspeito que algumas pessoas tenham ponderado levá-lo para casa embrulhado em lã merino.

As conversas dividiram-se entre técnicas de tricot, projectos futuros e a inevitável discussão sobre quantos projectos é aceitável começar sem terminar os anteriores.

Spoiler: ninguém chegou a consenso. E, sinceramente, também ninguém queria realmente chegar.

Crónica de Retiro de Tricot em Viseu — Domingo de manhã

Domingo começou devagar, naquele ritmo típico de retiro: metade das pessoas ainda a funcionar a café, a outra metade já pronta para uma caminhada “ligeira” que inevitavelmente se transformou numa pequena expedição turística.

Os passeios matinais dividiram o grupo em várias missões paralelas. A principal era clara: encontrar o famoso pão de Viseu, de que toda a gente falava com uma reverência quase religiosa.

Enquanto umas perseguiam o pão perfeito, outras entraram numa missão secundária igualmente séria: o queijo. Porque, aparentemente, um retiro de tricot também exige abastecimento regional devidamente organizado.

Entretanto, no hotel, desenrolava-se outra atividade de resistência física: o sobe-e-desce constante entre o piso do pequeno-almoço e a receção. O encontro estava marcado para as 11h na escadaria da igreja de São Francisco, mesmo ao lado do hotel, para nova fotografia de grupo e despedidas.

Mas o verdadeiro momento memorável da manhã aconteceu comigo e com a Paula. Sim. Ficámos presas no elevador.

Primeira reação: a Paula telefonar para a receção (felizmente tinha o contacto).
Segunda reação: carregar no botão de alarme enquanto não atendiam.

Nada de especial aconteceu além de alguns (pareceram-nos) bons minutos fechadas entre pisos, com a funcionária a perguntar se estávamos bem e a informar que já tinha chamado o técnico — mesmo sem o elevador dar qualquer sinal de vida. Não houve pânico, apenas um leve sufoco causado pelo calor.

Quando a porta finalmente se abriu, estávamos a meio metro de desnível, entre o chão e a liberdade. Entre mala, casacos e camisolas que já tínhamos despido devido ao calor que se acumulava como uma panela esquecida ao lume, lá fomos saltando, uma de cada vez, para recuperar o mundo exterior.

Saímos com uma nova apreciação pela liberdade vertical. E pelos elevadores que funcionam.

Quando regressámos ao grupo, umas nem se tinham apercebido do nosso pequeno cativeiro. Outras, já habituadas a que a “tropa” nunca se reúna de forma completamente ordeira, também não estranharam.

Balanço do retiro:

Saímos cansadas, (algumas adoentadas) com lã nas mãos e histórias nos bolsos. E ainda assim, suspeito que já se esperam as inscrições para o próximo retiro, mesmo sem se saber onde.


Um convívio absolutamente bem organizado, impossível de esquecer. Graças à fabulosa Tânea, que mantém sempre tudo a funcionar com uma calma que roça o milagre.