O conto que se segue foi premiado pela Casa do Educador, um reconhecimento que muito me honra e que agora partilho convosco.

Saída fatídica

Bernardo ia pela primeira vez a uma discoteca. O que mais o intrigava naquele lugar não eram as luzes nem a música, mas os cavalos. A discoteca A2 ficava junto a umas cavalariças e, segundo lhe tinham contado, era possível ver os animais nas pastagens mesmo durante a noite.

Apaixonado pela natureza e pelos animais, a ideia fascinava-o. Estudante universitário e escuteiro desde criança, raramente saía à noite. Apesar de já ser maior de idade, pediu autorização à mãe para ir com um amigo que frequentava o espaço e solicitou também o carro emprestado.

Bernardete hesitou antes de responder.

‒ Não demores a voltar. Sabes que não descanso enquanto não chegas. E presta atenção aos outros na estrada. Ah, e cuidado com a bebida. Tu não estás habituado.

Bernardo sorriu.

‒ Já sou crescido, mãe. O teu boguinhas vai voltar em perfeito estado.

‒ Quero o carro intacto, mas prefiro que sejas tu a chegar são e salvo.

Bernardete tivera o filho tarde e criara-o praticamente sozinha. O pai desaparecera pouco depois do nascimento. Desde então, a vida dela dividia-se entre a loja e o rapaz. Era protetora ao ponto de lhe vigiar cada passo.

Talvez por isso Bernardo se sentisse radiante naquela noite. Era a primeira vez que saía sem supervisores, sem regras, sem horários impostos. Vestiu um polo branco, calças de sarja bege e sapatilhas. Observou-se ao espelho, passou perfume e despediu-se.

Assim que entrou no carro abriu as janelas e mudou a estação da rádio. O ar fresco da noite e a música deram-lhe uma sensação de liberdade inesperada. Conduzia com prudência, mas desfrutava cada quilómetro.

Combinara encontrar-se com o amigo na discoteca K7, ponto intermédio entre as suas casas. Um morava em Paio Pires, o outro em Almada.

Quando estacionou, reconheceu o carro do Jorge. Antes de o avisar, permaneceu alguns minutos dentro do veículo a observar o movimento. Raparigas passavam em grupos animados. Não era apenas o ambiente que o atraía, mas também aquele desfile improvisado de juventude e confiança.

Uma delas prendeu-lhe a atenção.

Ruiva, sardenta, com um ar estrangeiro. Passou perto do carro e deixou no ar um perfume leve que o deixou momentaneamente suspenso.

‒ Uau. Parece que alguém ficou enfeitiçado.

Bernardo sobressaltou-se. Jorge aproximara-se sem que ele desse conta.

‒ Aquela é de outro nível ‒ confessou.

Jorge riu-se.

‒ Nem penses nisso. Aquela beleza já tem dono.

Apontou discretamente para a porta da discoteca, onde um homem enorme observava o movimento.

‒ O namorado?

‒ Exato.

Bernardo avaliou-o à distância.

‒ Credo. Parecem a Bela e o Monstro.

‒ E olha que o Monstro não tem sentido de humor.

Entraram.

O interior da discoteca não era particularmente elegante, mas pulsava de energia. A música vibrava no peito, as luzes cortavam a penumbra e o ar estava pesado. Bernardo estranhou o volume, pouco habituado àquele ambiente, mas aos poucos deixou-se envolver.

Encostaram-se ao bar.

Num dos ecrãs gigantes passavam provas de hipismo. No outro, desfiles de moda. As funcionárias usavam bodies justos que acentuavam as curvas. Os garçons circulavam de tronco nu, a pele brilhante sob as luzes.

‒ Aqui lavam-se os olhos ‒ comentou Bernardo.

‒ E muito dinheiro ‒ respondeu Jorge.

Conversaram algum tempo, entre goles e observações gritadas por cima da música.

Pouco depois, Bernardo inclinou-se para o ouvido do amigo.

‒ Vou lá fora respirar um pouco. E ver os cavalos.

Saiu.

O ar da noite soube-lhe a liberdade. A música tornou-se um eco distante. Caminhou alguns metros até vislumbrar as cavalariças.

Nesse momento cruzou-se novamente com a ruiva. Olhou-a por um segundo a mais do que devia.

Quando se virou, encontrou o brutamontes diante de si.

O homem apontou-lhe dois dedos em forma de pistola e sorriu de forma fria.

Bernardo engoliu em seco e desviou o olhar. Em vez de seguir para as estrebarias, mudou de direção e fingiu ir para o carro.

Enquanto caminhava, reparou num movimento estranho.

Um homem falava ao telemóvel perto de uma porta lateral da discoteca. Entrou rapidamente e saiu instantes depois com um volume pesado nos braços. Ao mesmo tempo, um carro aproximou-se pelas traseiras, com os faróis apagados.

Algo estava a acontecer.

Bernardo aproximou-se discretamente, escondendo-se entre carros estacionados. As roupas claras não ajudavam, mas a curiosidade falou mais alto.

Dois homens trocaram um saco volumoso. Conversaram pouco. Movimentos rápidos, olhares vigilantes.

Não percebeu exatamente o que era, mas parecia uma transação ilegal. Talvez drogas. Talvez substâncias para dopar cavalos. O pensamento atravessou-lhe a mente sem grande lógica.

Sentiu as pernas tremerem.

Ainda assim tirou o telemóvel e começou a filmar.

A distância e a escuridão tornavam as imagens pouco nítidas, mas era melhor do que nada.

Terminou o vídeo e enviou-o à mãe quase por impulso. Talvez como prova, talvez como instinto de proteção.

Depois escreveu rapidamente ao Jorge:

Vou-me embora.

Guardou o telemóvel e caminhou para o carro.

Dois homens surgiram de repente.

Um empurrou-o contra a porta.

O outro arrancou-lhe o telefone das mãos e atirou-o ao chão. O aparelho partiu-se em dois.

‒ Estás com sorte ‒ murmurou um deles.

‒ Foi só o telefone. Podias ser tu.

Bernardo não respondeu. Apenas acenou e afastou-se.

Entrou no carro com as mãos a tremer.

Ligou o motor e conduziu em direção a casa. O coração ainda batia descontrolado. A sua primeira saída noturna estava longe de ser aquilo que imaginara.

Pensou na mãe.

Ela devia ter recebido o vídeo. Explicar-lhe-ia tudo quando chegasse.

Estacionou na praceta atrás do prédio onde vivia e saiu do carro. A escadaria que descia até à porta da rua parecia comprimir-se sob os seus passos, conduzindo-o suavemente ao seu destino.

Um carro aproximou-se lentamente.

Parou à sua frente.

A janela desceu.

Dois clarões rasgaram a noite.

Bernardo caiu antes mesmo de compreender que a sua primeira saída noturna seria também a última.