Este mês deixo-vos o conto que ganhou o desafio de janeiro do Clube dos Writers
A cor do silêncio

Comecei pela tela em branco como quem encara uma janela fechada. Não era a primeira vez que pintava, mas era a primeira vez depois de tudo. A morte da minha mãe deixara a casa intacta e o meu olhar deslocado. Os móveis permaneciam no mesmo sítio, as chávenas alinhadas na prateleira, o relógio cumpria o seu dever circular, tique… taque…, costurando o silêncio da sala. Só eu é que já não cabia ali da mesma maneira.
A tela respirava diante de mim com um silêncio de hospital. Branco-clínico. Branco-que-não-perdoa. Molhei o pincel em azul-cobalto e hesitei. O primeiro traço é sempre uma espécie de traição: ao que imaginámos, ao que tememos, ao que fomos. Ainda assim, avancei. O azul abriu-se como uma veia mansa sobre o linho, uma fenda líquida no inverno da superfície.
Não pintei o mar. Pintei a ausência dele.
Desde criança que a minha mãe dizia que eu misturava cores como quem mistura memórias. «Nunca deites fora o resto da paleta», aconselhava. «É no resto que mora o inesperado.» Na altura eu sorria, sem perceber que falava da vida. Hoje, ao raspar com a espátula os vestígios de verde-oliva e ocre-queimado, senti que estava a revolver os restos do que fomos. As cores antigas recusavam-se a desaparecer. Transformavam-se.
O começo não foi o dia em que ela partiu. O começo foi este instante em que decidi não pintar o retrato que todos esperavam. Durante semanas, tentei esboçar-lhe o rosto: as rugas delicadas junto aos olhos, o cabelo preso num gesto prático, a boca sempre prestes a dizer o que eu ainda não sabia ouvir. Mas cada tentativa resultava rígida, como se a memória se deixasse fotografar, mas não tocar.
Percebi então que recomeçar não era repetir o contorno conhecido. Era aceitar que o rosto que procuro já não coincide com o que recordo.
Troquei o pincel largo por um mais fino. Acrescentei amarelo-nápoles ao azul. A cor abriu-se num verde-incerto, cor de promessas tímidas. Pintei uma linha oblíqua a atravessar a tela, quase imperceptível, como a cicatriz que me atravessa por dentro. Não representava nada concreto. Era apenas uma direção.
A casa continuava igual, mas eu começava a deslocar-me dentro dela. O ateliê improvisado na antiga sala de jantar cheirava a terebintina e café frio. A luz da tarde entrava pela janela com um pó dourado, pousando na tela como se quisesse participar. Pela primeira vez, não senti que estava a trabalhar sobre uma perda. Senti que estava a abrir uma porta.
O passado não se reorganiza em caixas etiquetadas. Espalha-se como tinta derramada. Podemos limpá-lo apressadamente ou aprender a integrá-lo na composição. Escolhi a segunda hipótese. Com um pano, esfumei parte do azul-inicial. A mancha perdeu intensidade, ganhou profundidade. Onde antes havia um corte brusco, surgiu uma transição quase respirável.
Talvez seja isso um recomeço: não apagar a cor anterior, mas permitir que dialogue com a seguinte.
Lembrei-me de uma tarde em que, adolescente, rasguei uma tela por frustração. A minha mãe não ralhou. Aproximou-se, tocou o rasgão com a ponta dos dedos e disse: «Agora tens duas hipóteses. Deitas fora ou transformas em outra coisa.» Na manhã seguinte, ajudou-me a coser o tecido e pintámos sobre a cicatriz. O quadro ganhou relevo, uma espécie de geografia acidentada que o tornava único.
Olhei para a minha tela atual e compreendi que estava a coser de novo.
A figura começou a insinuar-se sem que eu a planeasse. Não era um retrato, mas uma silhueta em movimento, quase a sair da margem esquerda para o centro. Não tinha rosto definido. Era feita de sobreposições: azul sobre verde, verde sobre amarelo, pequenas pulsações de vermelho escondidas nas bordas. Uma presença em trânsito.
Enquanto pintava, percebi que a minha relação com a memória se alterava. Já não procurava o contorno exato do que recordava. Procurava verdade. E a verdade, como a tinta, precisa de camadas.
O branco-inicial deixara de ser ameaça. Tornara-se espaço de respiração entre as cores. Deixei zonas por preencher, intervalos luminosos onde o olhar pudesse descansar. Aprendi que o silêncio, afinal, é outra forma de cor. A minha mãe nunca teve medo do vazio. «O vazio é o que permite que a forma exista», dizia. Talvez eu estivesse, finalmente, a compreender.
Quando me afastei alguns passos, vi que a tela não contava a história da perda, mas a da deslocação. A figura parecia avançar para uma zona mais clara, como quem atravessa um nevoeiro e descobre que a luz não estava fora, mas misturada na própria bruma.
Não chorei. Também não sorri. Senti apenas uma espécie de alinhamento silencioso, como se as peças internas tivessem encontrado nova disposição. A casa continuava a mesma. O relógio persistia no seu compasso contínuo. Mas eu já não estava no mesmo lugar simbólico. Não era a filha órfã diante de um passado imutável. Era alguém que escolhia a próxima cor.
Lavei os pincéis com cuidado. A água turvou-se num tom indefinido, memória líquida de todas as escolhas feitas naquela tarde. Pensei em começar outra tela no dia seguinte. Não para substituir esta, mas para continuar o diálogo.
Porque cada quadro é um começo disfarçado de continuidade.
Antes de apagar a luz, voltei a olhar a pintura. A silhueta parecia mais nítida na penumbra, como se ganhasse coragem na ausência de claridade excessiva. Talvez os recomeços sejam assim: não explosões visíveis, mas deslocações subtis que, de repente, tornam impossível regressar ao ponto anterior.
Fechei a porta do ateliê com a sensação de que algo em mim tinha sido redesenhado. A tela secaria durante a noite, fixando as camadas, consolidando as transições. Eu também.
E, pela primeira vez desde a perda, o dia seguinte não me pareceu uma repetição. Pareceu uma superfície em branco, não ameaçadora, mas disponível — à espera do primeiro traço que, inevitavelmente, me transformaria outra vez.


